A cidade que exportava mendigos

A cidade que exportava mendigos
Robledo Carlos é membro da Academia Formiguense de Letras




Acostumei ao meu cheiro, são escassos os meus banhos, nunca lavo a alma, nem sei se posso.

Geralmente estou bêbado ou chapado e a felicidade me entorpece em devaneios e delírios mil.

Lá em casa tinha uma geladeira, microondas e até um rádio que meu pai ouvia. Vendi.

Nunca me liguei ao tempo, eu vivo mesmo é na tempestade, eu sou o olho do furacão.

Não me preparei para morar em marquises. Hoje já me acostumei. Uns goles e tudo se faz fantasiar.

Eu só quero é viver. Viver eu posso? Existir eu posso? A moradia sou eu que escolho, uma marquise, um banco da praça, debaixo de uma ponte, um papelão para mim e para o Bartolomeu, meu cachorro que faz poemas.

Hoje uma dona me deu uma blusa, é preta de bolinha branca, essas de mulher, mas me serviu, ela disse que ficou boa em mim.

Eu nasci na Bahia, lá em Caculé. Meu pai morreu matado, foi a minha mãe, mas foi sem querer, ela estava limpando um frango quando meu pai foi dar um abraço nela, ela assustou-se e acertou o pescoço dele.

Ficou três anos presa a coitada. Eu fiquei com uma tia que me ensinou a beber para esquecer os problemas.

Virou mulher da vida e eu fiquei para a morte.

Minha mãe nunca mais vi, uns dizem que casou com um caminhoneiro.

Já estive em outras marquises de outros estados. Eu venho que descendo, as prefeituras nos pegam e nos deixam na cidade mais para baixo.

Pelas minhas contas, já devo estar bem próximo do inferno.

Nos pegam à noite, escondido de todos. A única vantagem é que nunca deixo nada para trás, nem mesmo o meu cachorro, em algumas cidades deixo o meu desprezo.

O preconceito é o que me mata, talvez um simples olhar ou um atravessar de passeio para não vir de encontro a mim. Morro todo dia, muitas vezes.

Me acostumei.

Mas nas minhas noites, a morte matada sempre vem, se me matarem irão me matar bêbado, com dor ou com fome.

Já colocaram fogo no meu cobertor por duas vezes. Jogam cigarros acessos.  Brizola, um cachorro que eu tinha, não fazia poemas, era cristão, ia todo dia à missa do Santuário, eu morava perto, ao lado da igreja em uma marquise.

Às vezes consigo rir, mas o choro é certo.

Eu peço a Deus, para olhar para mim assim como Ele olha para o moço que acabou de sair da missa.

Eu falo bem baixinho:

- Vão em paz e o Senhor os acompanhe.

Bartolomeu, faz o sinal da cruz.