A Dança Final

A Dança Final
Antônio Marcos Campos (de Avaré)




Ela vive rondando. É como um ator que esqueceu o texto, mas basta ouvir um cochicho para entrar em cena e tentar assumir o papel principal. Quando ela atua, quer nos reduzir à categoria de meros coadjuvantes; seu objetivo real é nos tirar da brincadeira.

Já me encontrei com ela várias vezes. Desde a minha mais tenra idade, ela me rondava como um cão esfomeado. Embora sempre presente, nunca vi seu rosto por inteiro. Acho que a decepcionei e a enfureci — não uma vez, mas várias. É por isso que ela continua a me vigiar, mantendo-se nas sombras. No início, ela era uma pintura abstrata, mas sem o colorido vibrante de Kandinsky; via apenas uma silhueta em tons escuros, um espectro filtrado por nebulosas.

A primeira vez que se aproximou, eu era pequeno demais para entender minha própria existência, quanto mais a dela. Que prazer teria ela em contracenar comigo se eu não tinha consciência da personagem? Se me tirasse de cena naquele momento, ela seria a vilã de um palco vazio. Ela se afastou, mas conforme tomei posse do meu papel, passou a enviar recados através de suas aliadas.

Houve um momento em que, já contracenando com desenvoltura, recebi um golpe baixo. Um recado mesquinho, maldoso. Senti-me como Anita Malfatti sob a crítica feroz de Monteiro Lobato na Semana de 22. Passei a atuar timidamente sob o olhar de “olheiros” que não buscavam meu melhor desempenho, mas esperavam o momento em que eu esqueceria a fala. O que eles não sabiam é que eu estava escrevendo meu próprio texto — e eles eram apenas parte da trama.

Ela ficou irada. Parecia uma Erínia querendo estraçalhar minhas carnes. Seus ataques se intensificaram, usando doenças, perdas e armadilhas para me aniquilar. Mas eu continuei a decepcioná-la, atuando com cada vez mais vigor.

Hoje, sei que quanto mais vivo com plenitude, mais ela se aproxima. Mas agora a vejo mais colorida, em tons de aquarela esmaecidos, sem as nebulosas de outrora. Tenho consciência de que são meus olhos que mudaram, não ela. Ela continua perspicaz e mutante em suas armadilhas, seja através da natureza ou de seus atores preferidos.

Encararei cada nova emboscada como mais um espetáculo a ser apresentado. Pois pretendo atuar com tal maestria que, no último momento, serei eu a estender-lhe as mãos e convidá-la, com serenidade, para a nossa dança final.

Antônio Marcos de Campos