A Ponte dos Três Irmãos
O Rio Formiga, que dá nome à Cidade das Areias Brancas, não tinha o seu curso entre as pontes conhecidas por “do Engenho de Serra” e “da Nestlé”, como é hoje. O leito original seguia pela Rua Santo Antônio, atual Quintino Bocaiúva, passando pelo Largo do Ferro, hoje Praça Getúlio Vargas, indo até o final da contemporânea Rua José Gonçalves D’Amarante. No dia 10 de julho de 1872 a Câmara Municipal deliberou adquirir o terreno onde atualmente corre o rio, para nele construir uma vala e transferir para ela o trajeto do nosso mais importante curso d’água. A obra foi realizada manualmente e o transporte da terra feito por carroças. Em 1º de setembro de 1879 a escavação foi entregue e o caminho do rio foi desviado, estando correndo neste novo leito até os dias de hoje.
Há alguns anos, o rio ainda teimava em voltar ao seu antigo leito, invadindo a Rua Quintino Bocaiúva e a Praça Getúlio Vargas. As grandes enchentes de 1966 e de 2008, fizeram esse trajeto.
Em um dos pontos mais centrais da cidade, encontra-se sobre o Rio Formiga a Ponte dos Três Irmãos, que assim ficou conhecida dada à sua proximidade com a renomada loja dos irmãos Barbosa, a Casa Três Irmãos, que ficava no espaço hoje ocupado pela Casa 505. A ponte marcou gerações de formiguenses que dela se utilizaram. Alunos da “Escola Normal” e do “Joaquim Rodarte” que moravam do “lado de cá”, a atravessavam diariamente para irem àqueles templos do saber. Em sentido inverso, os discípulos do “Rodolfo Almeida”, do “Santa Terezinha” e do “Aplicação”, que moravam do “lado de lá”, também passavam pela ponte. Trabalhadores e o povo em geral sempre tiveram essa ponte como um importante equipamento urbano para os seus acessos seja de qual lado estivessem. Desfiles cívico-militares dos Seis de Junho e Sete de Setembro, também passavam sobre a ponte. É difícil encontrar um formiguense que não tenha gravado em seu coração e em sua mente a imagem da ponte que ele sempre utilizou, seja a pé ou por meio de um veículo.
Não foram encontrados assentamentos das datas de construção e de inauguração da ponte que faz parte da memória afetiva dos formiguenses. Há registros que comprovam que esta ponte foi construída durante a administração do Dr. Newton Ferreira Pires, que governou Formiga de 1918 a 1932, como presidente da Câmara Municipal – a figura do prefeito só surgiria a partir de 1930 – . Uma fotografia retratada no “Álbum da Cidade de Formiga”, de 1929, mostra a ponte já construída em concreto, ou em “cimento armado” como está identificada, portanto pode-se afirmar que a sua construção data da década de 1920, sendo difícil que tenha sido antes, haja vista que Newton Pires teria só dois anos de mandato.
É a primeira construção em concreto armado da cidade, um marco para o município. Curiosamente esta ponte não tem nome, embora a maioria das demais pontes e pontilhões sobre rios e córregos que cortam a cidade têm seus nomes em homenagem a personalidades formiguenses natas ou de coração. A última foi a nossa única ponte ferroviária, que recebeu em 2024, o nome de “Ponte Guiomar Fontes Soares”.
Uma ponte construída há cerca de cem anos, convenhamos, não foi dimensionada para suportar o trânsito atual, por isso foi submetida a várias intervenções, as mais lembradas foram a construção em uma das administrações de Juarez Carvalho, de uma estrutura conhecida por “cut of”, para evitar o desassoreamento das suas bases. Juarez ainda ressuscitou o projeto do então Vereador Sílvio de Faria Belo e mandou alargar as laterais, aumentando os passeios para pedestres. Durante o governo de Moacir Ribeiro foi construída uma sapata de concreto na base de um dos pilares. Nos dois mandatos de Eugênio Vilela a ponte era sempre monitorada por equipes da Secretaria de Obras e de Gestão Ambiental para a verificação da sua estrutura e para a limpeza no entorno das suas bases.
Com a forte enchente que ocorreu de 23 para 24 de janeiro, a velha e tradicional ponte que serviu de passagem para milhares de pessoas ao longo de quase cem anos, não suportou a descomunal força das águas e cedeu à fúria incontrolável do nosso tão pacato Rio Formiga dos tempos de seca. O chicote hídrico avassalador golpeou de morte o seu principal pilar, fazendo-o colapsar e com ele toda a estrutura do conjunto. Não se sabe até o momento se será possível recuperá-la ou se a engenharia a condenará à demolição.
Assim, dou minha singela contribuição para divulgar um pequeno histórico da Ponte dos Três Irmãos, creio que para muitos até então desconhecido. Caso a ponte venha a ser reconstruída, ouso sugerir ao Poder Público que ela receba o nome de “Ponte Prefeito Aluísio Veloso da Cunha”, em uma justa homenagem a um grande prefeito de Formiga, que precocemente partiu para a Morada Eterna.
Jorge Zaidam Viana de Oliveira é professor veterano de História

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