A roda da economia no ano eleitoral
A manchete da Folha de S.Paulo desta segunda-feira joga luz sobre um movimento relevante da economia brasileira em ano eleitoral. Os estímulos devem ultrapassar R$ 700 bilhões em 2026, podendo chegar a R$ 742 bilhões, o equivalente a 5,4% do PIB. A aposta é clara. Mais crédito, mais gastos e mais incentivos para manter a economia girando.
O número impressiona, mas levanta uma dúvida que vai além dos dados. Esse dinheiro todo será capaz de melhorar, de fato, a vida do brasileiro comum?
A lógica dos estímulos passa pelo aumento do consumo e dos investimentos. No papel, mais recursos disponíveis deveriam significar mais atividade econômica. O problema é que esse impulso acontece em um momento em que a economia já apresenta sinais de aquecimento, o que pode pressionar a inflação e manter os juros elevados. Quando isso acontece, o ganho não chega inteiro ao bolso do consumidor.
Aqui no interior, essa dinâmica é sentida de forma direta. O crédito continua sendo um obstáculo. Mesmo com a ampliação das linhas disponíveis, o custo ainda é alto para pequenos produtores, comerciantes e prestadores de serviço. Na prática, muitos evitam novos financiamentos e optam por segurar investimentos, preservando o caixa diante das incertezas.
No comércio, o efeito também encontra limites. Com o endividamento elevado, as famílias tendem a usar qualquer folga no orçamento para reorganizar as contas, e não necessariamente para consumir mais. Isso se traduz em compras mais cautelosas, troca por produtos mais baratos e maior dependência do parcelamento.
A experiência recente mostra que anos eleitorais costumam trazer esse tipo de impulso adicional na economia. A própria Folha de S.Paulo destaca que esse movimento tende a se repetir, independentemente do cenário político. O ponto de atenção está no que vem depois. O aumento dos estímulos agora pode pressionar as contas públicas e prolongar um ambiente de juros altos, com efeitos que se estendem para além do calendário eleitoral.
No fim das contas, os números podem até indicar crescimento. Mas é na rotina, no consumo e no custo de vida que a economia é realmente medida.
E essa conta, o eleitor conhece bem.
Cida Leal é jornalista e assina a coluna de economia de O Pergaminho todas as terças-feiras

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