A SEITA QUE DÓI MENOS
Radicalismo é a paixão elevada às últimas consequências. É quando a ideia deixa de ser ideia e vira crença, depois vira dogma, e por fim vira CAPS LOCK. Paixão demais, como café requentado ou áudio de WhatsApp de oito minutos, atrapalha.
Nas redes sociais — esse grande templo ecumênico da certeza absoluta, é comum vermos influenciadores, professores pós-graduados, doutorandos, autodidatas com curso intensivo em thread, todos igualmente convictos de que entenderam tudo. Sociologia em 30 segundos. Economia em três stories. Política explicada com emoji de fogo e cara de espanto. Se discordou, é porque faz parte da seita maldita.
Aliás, toda discussão hoje começa assim: “Vocês da seita…”. Nunca é “vocês do argumento”, “vocês da interpretação diferente”. Não. É sempre uma seita. Com direito a líder imaginário, rituais secretos (geralmente lives) e uma fé inabalável em gráficos sem fonte.
Mas sejamos justos: se existe a seita do outro, existe também do lado oposto, claro. Cada um defendendo sua ideologia — às vezes fantasiosa, às vezes utópica, quase sempre contraditória — como quem defende time de futebol: não importa o placar, o juiz é ladrão e a estatística é comunista (ou neoliberal, depende do dia).
O que não falta são inconsequências embaladas em narrativas épicas. Fake news com trilha sonora de indignação. Meias-verdades promovidas a verdades absolutas porque “todo mundo está falando”. E quando todo mundo fala, ninguém escuta.
Defendo, sim, a liberdade de expressão — inclusive a liberdade de dizer bobagem com convicção acadêmica. Afinal, censurar a fala alheia não nos torna mais inteligentes; só nos dá a ilusão de superioridade moral, que é um dos principais sacramentos da seita.
O problema não é falar. É não desconfiar do que se fala. É não admitir dúvida. É transformar opinião em identidade e discordância em heresia. A partir daí, não há debate, só excomunhão.
Por isso, em tempos de radicalismos apaixonados, convém aprender a separar o joio da cizânia, o argumento do meme, o roto do esfarrapado — porque, no fim das contas, todo mundo está um pouco rasgado de certeza e costurado de contradição.
E diante de tantas seitas, confesso a minha escolha espiritual: sigo fiel à Seita que Dói Menos. Menos certeza. Menos grito. Menos ódio. Porque, no barulho das redes, às vezes o verdadeiro ato revolucionário é pensar e, pasmem, mudar de ideia.

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