AMPULHETA DIGITAL

AMPULHETA DIGITAL
AC de Paula (de São Paulo)




Antes, a notícia subia aos céus em espiral, era fumaça, era espera, era tempo mastigado pelo vento. Um índio erguia os olhos, riscava o ar com silêncio, e a aldeia inteira a prendia a ler nuvem, sem desconfiar do que estava escrito nas estrelas. Cada sopro era um verbo, cada labareda uma vírgula ardendo no horizonte. Hoje, a fumaça não sobe —ela baixa. Vem em forma de barra de sinal. Quatro risquinhos que decidem o humor da humanidade.

Do sinal de fumaça ao Wi-Fi perdemos o fogo e ganhamos a senha. Antigamente, para falar com alguém, era preciso acender algo dentro.

Agora basta clicar com o coração e a alma gelados, pois ninguém garante que haja brasa do outro lado. A modernidade prometeu conexão,  entregou carregador portátil. Prometeu aldeia global, entregou condomínio digital com porteiro eletrônico e vizinho que faz denúncias no grupo de whatsapp.

O curandeiro, que não é bobo nem nada, virou influencer de boné e ray-ban. A oca virou perfil verificado. A roda em volta da fogueira virou feed que gira sozinho — e a gente gira junto, hipnotizado pela própria sombra iluminada pela tela. Nunca se falou tanto. Nunca se escutou tão pouco.

No tempo da fumaça, só havia o céu por testemunha. Hoje, o algoritmo é juiz invisível que se infiltra em nosso dia a dia, e decide quem aparece e quem evapora. E pensar que antes o vento espalhava mensagens sem cobrar plano mensal ou anuidade.

Hoje, se cai o Wi-Fi, cai a civilização, e o alienado cidadão se machuca, psicologicamente abalado pela falta do vício contagiante. Tem gente que prefere perder o juízo a perder a conexão.

Mas há algo curioso nessa história toda: a fumaça precisava de fogo.

O Wi-Fi precisa de energia. E nós… continuamos precisando uns dos outros. Talvez, o problema não seja a tecnologia. Talvez seja o coração em modo avião.

E enquanto o mundo disputa velocidade, eu na qualidade de último romântico saudosista, ainda acredito na chama lenta, na conversa olho no olho, na palavra que não precisa de senha de acesso.

Porque no fim, se a mensagem não aquece, não adianta ter alcance global, do sinal de fumaça ao Wi-Fi a evolução foi gigante. Mas a humanidade ainda continua intrigada sem entender direito como funciona, e o tempo se esvai na areia da ampulheta digital.

AC de Paula é dramaturgo, poeta e compositor