ANTES ELE DO QUE EU
A polêmica se encerra não importa quem morreu, e o velho ditado já disse: antes ele do que eu! Vivemos na era do alívio egoísta, a manchete sangra, mas o coração faz conta dos likes na postagem: “Não foi comigo.” E a vida segue — com filtro, legenda e promoção relâmpago. Não importa quem morreu,o importante é lucrar com o velório.
O velório virou letra morta, a indignação tem prazo de validade, e a consciência pode ser parcelada em suaves prestações sem juros, sem culpa, sem memória. Antes ele do que eu.Frase curta, pensamento longo. Sobrevive quem se esconde atrás do próprio medo e chama isso de prudência.
A tragédia virou segmento de mercado. Tem influencer explicando luto,
coach ensinando superação em três passos, resignação sem complexo de inferioridade, e político fazendo minuto de silêncio com cronômetro eleitoral adiantado.
E eu? Eu quero é vender vela. Não por devoção é claro, mas por oportunidade. Se o mundo insistir em apagar gente, alguém vai lucrar com a escuridão. A morte virou empreendimento. O medo, capital de giro. E a ética… ah, a ética está em liquidação com preço de black friday. Não importa quem morreu — importa quem faturou.
A humanidade aprendeu a terceirizar o sofrimento. Chora-se à distância,
lamenta-se em grupo, mas salva-se o próprio pescoço como quem protege o último pedaço de pão numa mesa onde só há fome e discursos.
Antes ele do que eu. Antes o vizinho. Antes o anônimo. Antes o que pensa diferente. Antes o que incomoda. O importante é respirar, mesmo que o ar esteja pesado de indiferença.
E seguimos —cada qual com sua vela na mão, não para iluminar caminhos,
mas para garantir estoque quando a próxima queda vier. Porque, no fundo,
a polêmica nunca se encerra. Ela só muda de vítima. E enquanto houver medo, haverá quem venda consolo. Enquanto houver morte, haverá quem negocie silêncio. Antes ele do que eu — diz a consciência encolhida. E o mercado agradece.
AC de Paula é dramaturgo, poeta e compositor

Diagramador 4 








