As areias dos nossos rios
O codinome de “cidade das areias brancas (que saudade, heim?)” ainda tem um pouco do sentido de ser. Em épocas mais felizes podíamos nos deliciar com os areões formados ao longo das margens do rio Formiga e seus companheiros. Este palco de epopéias infantis era muito, muito querido por todos. Correr pela areia, ferrar luta na areia, rolar pela areia foram práticas que fizeram parte da infância de muitos de nós. A areia ainda não acabou, mas a poluição e a exploração desenfreada que estão destruiu os nossos rios, rebaixando seu talvegue e criando barrancos para todo lado vai acabar por torna-la rara e dispersa. A procura por ela é muito grande e diversos caminhões de fora vêm compra-la aqui para ser usada em diversas cidades que não possuem tão valioso recurso para construção civil (ou não podem explora-la tão facilmente assim). Felizmente ainda existem várias cachoeiras nas imediações da cidade onde podemos nos deliciar com muitas dádivas, inclusive com areias brancas como a neve. Agora, uma pergunta simples: Por acaso alguém já se perguntou de onde vem esta areia toda?
Areia é, antes de tudo, uma unidade de medida. Seus grânulos variam de 2 a 0,063mm ou de 2 a 0,02mm de diâmetro, conforme a escala utilizada e ela pode ser constituída de qualquer mineral. Nossas areias são predominantemente quartzosas, ou seja, predominam grânulos de quartzo porque nossas rochas são ricas dele. Em menor quantidade, temos na areia feldspatos, micas e outros minerais.
As rochas que dão origem às areias no nosso município são principalmente rochas ígneas (oriundas da consolidação do magma) e metamórficas (rochas reorganizadas por altas temperaturas e pressões). Como exemplos, temos os granitos, tonálitos, gnaisses e migmatitos. São rochas formadas a grandes profundidades na crosta e que estão expostas à superfície por soerguimento isostático ou orogênese, fenômeno que leva milhões de anos para que seja perceptível.
Com isto, as rochas vão sendo decompostas pelos agentes físicos e químicos, potencializados por clima quente e úmido, dando origem a solos arenosos em diversos graus. Pela ação cinética das águas pluviais e dos rios, a areia e a argila são selecionadas por granulometria e densidade, formando estratos distintos no leito do rio e seus meandros. A natureza faz todo o trabalho de seleção granulométrica. É um recurso finito, pois a reposição da areia na natureza através do intemperismo das rochas é muito mais lenta do que a retirada crescente da mesma.
A areia é um recurso natural cuja exploração deve ser bem estudada e controlada para benefício de todos, inclusive para quem a explora.
Andando por um areão ou areal encontramos muitas coisas interessantes, tais como rochas com formatos estranhos, troncos retorcidos levados pela enchente, entre outras. Aquelas manchas negras que ficam na areia depois de uma chuva são constituídas de magnetita, ilmenita, zirconita e outros minerais. Um interessante divertimento é passar um ímã grande destes de auto-falante nesta superfície escura quando seca; a magnetita é imediatamente atraída por ele e com pouco tempo de coleta podemos recolher alguns quilogramas deste interessante óxido que se presta para práticas de aulas de ciências e divertimentos usando o mesmo ímã.
Como vocês podem ver, a relação com os rios e a areia faz parte da cultura formiguense e como tal estes recursos devem ser cuidados e respeitados. Entretanto, recentemente presenciamos a ação desastrosa de uma cheia do rio Formiga, a qual solapou ainda mais as sapatas e a base das sapatas da ponte do centro, condenando-a. houve outros danos estruturais, mas este atingiu o coração da cidade. Margens e calha com geometria e proteção inadequadas, velocidade e volume das águas relembraram as velhas cheias da minha infância.
Quando vocês forem brincar ou trabalhar com areia, lembrem-se com muito respeito de que ela é o testemunho de milhares e até milhões de anos de trabalho incansável da natureza, intemperizando rochas, selecionando e concentrando um bem utilizado para nossa sobrevivência, conforto e diversão.
Anísio Cláudio Rios Fonseca
Professor pesquisador e coordenador do museu de mineralogia do UNIFOR-MG
e-mail: anisiogeo@yahoo.com.br

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