As Entrelinhas da Narrativa
Há textos que gritam. Outros, sussurram.
E há os que apenas respiram entre um ponto e outro.
É neles que mora o que mais me interessa:
as entrelinhas — essas linhas em silêncio que vivem de dizer o que ninguém ousa. Elas agem assim como se fossem agentes secretas, se entranham nas frases, e cheia de intenções se insinuam sutilmente, só são percebidas pelos leitores mais atentos.
A frase vem polida, o verbo no tempo certo,
mas escorre um medo pelas margens.
Um ressentimento antigo disfarçado de ponto e vírgula.
Uma saudade que não se assume, mas se insinua
— feito perfume esquecido na gola de uma camisa.
A narrativa, essa senhora vaidosa, quer parecer inteira.
Mas carrega buracos costurados com reticências.
E quem lê com olhos distraídos, vê só o tecido.
Mas quem lê com o coração em desalinho,
vê o ponto mal dado, o fio solto,
a dobra onde mora a história verdadeira. É nessa colcha de retalhos coloridos de intenções que se oculta a sua essência.
Porque a verdade — ah, essa teimosa —
nunca se apresenta com holofotes e brilho de lantejoulas, e muito menos como apresentação pública e deslumbrante de um astro pop.
Chega pelas beiradas, vestida de detalhe, mera figurante escondida no gesto que não
se menciona, não ofusca a personagem protagonista, atravessa a cena
sem dizer uma única palavra
— mas diz tudo, por vezes até emociona.
Tem coisa que só se entende quando não se entende de primeira, coisa séria é brincadeira, e de uma queda vai-se ao chão.
Quando se volta, relê, revê, revira.
Aí, sim, a frase revela sua espinha, seu amor, humor ou ira, e o texto, sua alma, além da imaginação.
Há quem escreva com tinta.
Eu prefiro escrever com falta.
Com aquilo que não coube no parágrafo,
que escapou pela fresta do travessão.
Com o que ficou entalado entre um “bom dia” e um “tudo bem?”.
Porque viver — me perdoem os que se contentam com o brilho do verniz da superfície —
é ler entrelinhas o tempo inteiro.
É perceber que o “já volto” pode ser “não sei se volto”.
Que o “fica à vontade” pode significar “não se demore”.
E que o silêncio de alguém diz mais
do que mil discursos inflamados. O silêncio por vezes é mais do que uma prece, é uma missa, uma celebração.
No fundo, escrevemos como vivemos:
tentando explicar o mundo com palavras demais,
quando o essencial está sempre onde não se diz. Por isso, talvez, calado eu seja melhor poeta.
AC de Paula é dramaturgo, poeta e compositor

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