As formações ferríferas bandadas da Serrinha

As formações ferríferas bandadas da Serrinha
Anísio Cláudio Rios Fonseca (de Formiga/MG)




A pesquisa sempre foi um campo de incríveis surpresas no nosso município. Sua localização geográfica engloba substratos variados e, com isso. Paisagens e ocorrências peculiares. Quando me envolvi publicamente na questão do aterro sanitário a ser instalado na Serrinha ( vários anos), procurei chamar a atenção para outras questões que não fossem propriamente os diversos problemas que poderiam ser ocasionados por sua construção e funcionamento. Procurei chamar a atenção para a importância do estudo e preservação patrimônio geológico da região; sua geomorfologia, petrologia, mineralogia, hidrografia, com ênfase em suas interessantes formações rochosas, particularmente as formações ferríferas bandadas (FFB). 

No campo acadêmico, o assunto das FFB despertou interesse por parte de profissionais do Instituto Geológico e Mineiro de Portugal; dos profissionais da Universidade Federal de Ouro Preto. Vou aproveitar este precioso espaço para explicar da melhor maneira possível o que são as FFB e como se formaram, pois este assunto é tão impressionante que creio que despertará a atenção da maioria.

Estima-se que o planeta tenha uma idade de 4,5 bilhões de anos. A rocha mais antiga conhecida na Terra era o gnaisse de Acasta, com 3,962 bilhões de anos. Sua idade foi datada por radiometria através de isótopos de U-Pb (Urânio- chumbo). Posteriormente dataram outro mais antigo. O oceano foi formado há aproximadamente 4 bilhões de anos, com o resfriamento gradual do planeta e precipitação. A atmosfera não era como é hoje; havia uma enorme quantidade de gás carbônico (CO2) e as temperaturas das águas giravam em torno de 150ºC. Os organismos primitivos surgiram principalmente em águas profundas, próximos aos vulcões submarinos, utilizando energia geotérmica para seu metabolismo. Praticamente não existia fotossíntese. Já as FFB foram formadas em um amplo espaço de tempo correspondente a 1,8 a 3,5 bilhões de anos

O cinturão de Van Hallen, campo eletromagnético que envolve o planeta e desvia a maioria das radiações letais vindas do espaço, deve ter se formado em torno dos 2,7 bilhões de anos e a partir daí os organismos mutaram, podendo proliferar em mar raso. O vulcanismo marinho e a erosão continental foram os principais fornecedores de íons de ferro, os quais ficavam dissolvidos no mar, na forma reduzida Fe2+. As Cyanobactérias (principalmente) começaram a realizar a fotossíntese maciçamente e o oxigênio resultante deste processo reagiu com esse ferro, fazendo com que ele precipitasse na forma de hidróxido de ferro, formando estratos no fundo marinho. Este evento foi cíclico e subordinado às variáveis ambientais. Níveis de sílica (SiO2) precipitada também se alternavam com os níveis de hidróxidos de ferro, formando assim com o tempo rochas bandadas, as chamadas “Formações Ferríferas Bandadas” ou BIF (Banded iron formation).

Com o passar de centenas de milhões de anos, estas rochas sofreram diversos processos químicos e físicos, vindo a ficar como são hoje. Sua importância científica é imensa e seu estudo ajuda a compreender a história do planeta, a proliferação da vida e os fatores que determinaram a maneira como a vida se desenvolveu. Também é imensa sua importância como geradora de depósitos de minério de ferro como os do nosso país.

A imparável dança das placas tectônicas trouxe um fragmento da crosta oceânica para o que é atualmente a Serrinha, juntamente com um fragmento do manto terrestre. Tais estruturas têm mais de 5 km de extensão, até onde sei. Como o prezado leitor pode ver, as questões ambientais em nosso município vão muito além do quadro atual. Elas começaram na noite dos tempos e deixaram suas indeléveis marcas nas rochas, como provas cabais da extrema grandiosidade da Criação, na inevitabilidade da proliferação da vida, nos maravilhando com o êxtase de visualizar nestas provas a nossa importância, nossa responsabilidade para com a natureza e, paradoxalmente, nossa pequenez perante a história do planeta e deste pedacinho de terra, nossa querida Formiga.

(Anísio Cláudio Rios Fonseca é professor pesquisador do UNIFOR-MG e coordenador do laboratório de mineralogia) e-mail: anisiogeo@yahoo.com.br