Bar-baridade

Bar-baridade
Ana Pamplona é membro do Coletivo Poesia de Rua




— Lucília! Tira essa quinta-feira da folhinha, por favor!! Vamos esquecer o dia de hoje. Pronto, decretado! — gritou o dentista para sua auxiliar.

Aquele dia no consultório odontológico não estava sendo fácil para o Dr. Toletinho(*): brigas com protéticos, a mangueira da seringa tríplice furada e espirrando água pra todo lado, paciente devendo e querendo atendimento, entidades beneficentes pedindo contribuições, reclamações sobre os preços dos orçamentos, a conta do Veterinário... Pior: Lucília, sua auxiliar, com sintomas de TPM. “Hoje o mar não está pra peixe”, pensou ele. 

Decidido a consertar a terrível experiência daquele dia, pediu à sua auxiliar para remarcar os pacientes que não iria atender e ligou para a esposa, D. Solange:

— Meu bem, já terminei aqui no consultório, tive um dia de cão, estou indo “entornar um querosene”. 

Dizia isso sempre que decidia dar a famosa passadinha no “Bar-baridade”, o boteco do Miguelito. D. Solange detestava aquele bar. Sujo, tudo lá era sujo: copos, mesas, paredes, petiscos com má aparência, embora todos diziam serem os melhores da cidade. Quando passava por lá, na maioria das vezes, Toletinho chegava completamente bêbado em casa. Ela tentou dissuadi-lo:

— Joaquim Bartolomeu, esqueceu que hoje é dia de fazer compras comigo? Vai dar para trás? — disse ela com autoridade.

— Sim, querida, vou. Hoje vou aceitar o convite do Drumond: “Meu amigo, vamos sofrer, vamos beber, vamos ler jornal, vamos dizer que a vida é ruim, meu amigo, vamos sofrer. Vamos fazer um poema ou qualquer outra besteira. ” 

Recitou os versos cantando-os com voz de taquara rachada. Ainda pensou que qualquer dia iria tocar essa moda na viola caipira.

Ciente de que não tinha como impedir, a “patroa” só pôde dizer:

— Ok, mas não vá beber demais, heim?

Satisfação dada, agora era cumprir o prometido. Ligou para alguns amigos e foi.

Ah, que maravilha era estar num boteco, pensava ele. No Bar-baridade, então, nem se fala. Miguelito havia criado o melhor lugar para esquecer um dia difícil. Ali era a verdadeira democracia. Acolhia gente de todo tipo, era só chegar e gritar: 

— Miguelito, traz um chopp! Miguelito, uma cachaça da boa! Miguelito, uma porção de torresmo!

Não tinha frescura, nem mi-mi-mi. Podia-se comer sem peso de consciência, uma comida gordurosa, salgada, feia, porém, a melhor da cidade. E o visual do bar? Não podia ser melhor: azulejos medonhos, remendados, sujos, uma imagem de santo na parede (provavelmente o santo padroeiro do bar), ao lado de bebidas variadas, plaquinhas com frases de efeito, tais como, “Dinheiro não traz felicidade, mas compra cerveja que é quase a mesma coisa”; “Depois que li sobre os males da bebida, parei de ler”; “Ave Maria, cheia de graça, prepara o fígado lá vem cachaça”; “Eu bebo pra ficar ruim, se fosse pra ficar bom eu tomava remédio!”; e a tradicional, “FIADO: somente para pessoas com 90 anos acompanhadas dos avós”.

Ali sim, tinha conversa fiada. Podia-se falar mal de todo mundo, dos políticos corruptos, do time de futebol dos outros, da religião dos outros, podia-se falar palavrões, enfim, todos se enturmam fraternalmente regados a cachaça. Era isso. E foi isso.

Mas sempre tem o dia seguinte...

Bem... no dia seguinte, Toletinho acordou. Acordou muito além do horário habitual e depois de ter sido sacolejado insistentemente por D. Solange. Lucília já havia ligado várias vezes para saber do paradeiro dele e também, desmarcado alguns pacientes. 

Ele abriu os olhos e tudo girou quando tentou levantar. Havia dormido no sofá. A cabeça explodia. 

— O que aconteceu, meu bem? Por que está tão nervosa? — perguntou ele com o tradicional sotaque de ressaca.

— O que aconteceu? Nada demais! Apenas o fato de que você chegou às 4 da manhã, completamente bêbado, quase atropelou os cachorros, dormiu de cueca no sofá e urinou dentro da geladeira... só isso, meu bem!

— Euuuu??? Urinei na geladeira? Mas como pode? Mas... mas.... aaaah... (fez uma expressão de quem estava se lembrando) Ahhhh.... bem que eu notei mesmo, que quando abria a porta do “banheiro”, a luz acendia...

(*) Conheça o personagem Toletinho na Edição número 6335, de 17 de Abril de 2024, de O Pergaminho, ou no livro da autora, “PROESIAS”.