Brotam emoções primitivas

Brotam emoções primitivas
Anísio Cláudio Rios Fonseca é professor pesquisador do Unifor-MG e coordenador do laboratório de mineralogia e-mail: anisiogeo@yahoo.com.br




Há alguns dias fiquei muito feliz com as gentis observações que uma leitora fez sobre meus artigos; e foi “a leitora”! As aspas se justificam porque se trata de uma pessoa muito conhecida, influente, inteligente e culta. Ela disse gostar do fato de que os temas tratados aqui são muito variados, ecléticos. Isto me inspirou a escrever sobre algo que adoro desde criança- a prática do arco-e-flecha. Possuo um arco indígena de ipê que mede 2,14m e tem uma potência incrível, acima de 110 lb. Sua rusticidade aliada à minha proporciona bons momentos de diversão nos finais de semana. Atirar para o alto (em um pasto muito grande e vazio) e ver a flecha quase sumir é muito legal. A própria confecção de flechas e arcos é uma distração que me faz muito feliz. 

Pode parecer estranho para essa geração desnorteada, mas construir e manejar instrumentos primitivos desperta muito da memória genética que habita cada um. A vida moderna nos escravizou dentro de uma ilusão de que civilização é sinônimo de modernidade e, com isso, os prazeres mais simples da vida ficaram relegados ao inconsciente. Já eu penso que os conhecimentos que adquiro todos os dias sobre como fazer e como funcionam as coisas poderão ser úteis um dia, quem sabe.

Compartilhando dessa paixão, embora de forma muito mais avançada que eu, conheci o presidente de um clube de arquerismo. Através dele, tive acesso a diversos projetos de construção destes fascinantes instrumentos em um nível que eu nem imaginava. Como eu, ele também aprecia o arco primitivo e, de preferência, construído com as próprias mãos. Construir um arco assim é uma tarefa que demanda tempo, paciência e habilidade, mas o resultado é sempre muito compensador.

Claro que os modernos arcos feitos de diversos componentes sintéticos, compostos ou não, são muito interessantes e extremam ente eficazes, mas a emoção de construir o próprio arco (ou faca, etc.) é que ativa aqueles genes que guardam nossas lembranças ancestrais, quando nossos antepassados vagavam em busca de caça ou guerreavam. O sucesso destas atividades dependia muito do grau de perfeição dos detalhes construtivos destes instrumentos.

O know-how primitivo não pode perder seu lugar na cultura do homem moderno, e felizmente a internet ajudou muito a guardar informação. Deve estar bem enraizado na memória de cada um, para que o ato de disparar uma flecha certeira seja muito mais do que aparenta ser. As emoções que nos remetem a lembranças de tempos menos burocráticos devem ser sentidas todos os dias, nas atividades mais simples como pescar, atirar com o arco ou o que for. Devem ser aquele elo que une o primitivo ao moderno, preservando identidade e nossa história.