Cansaço...
Minha cabeça pára num estranho torpor. No que eu estava pensando mesmo? Vinte segundos no nada. Um vazio imenso, uma incapacidade de me lembrar ou raciocinar invade meus sentidos. Uma preguiça enorme e dores inexplicáveis pelo corpo dilapidam minha vontade de vencer o dia. Estou com amnésia progressiva, esqueci parte de mim em algum lugar, parece que deixei algo ligado, uma torneira aberta ou perdi um compromisso importante. Acho que sou outra pessoa. Não consigo gravar o nome de ninguém. Parece haver um muro imenso na minha frente, impedindo minha visão das coisas. Os ponteiros se arrastam num irritante descaso com minha circunstância mental e a hora que quero não chega nunca. Aliás, nem sei mais para que quero àquela hora! À noite, quando me deito, remôo pensamentos sobre minhas atividades e o sono parece um objetivo cada vez mais distante. Uma obrigação esquecida me assusta repentinamente e meu coração dispara. O sono, que chegava tímido, esvai-se na escuridão. Nem era tão importante assim. Levanto-me, verifico se meu filho pequeno está coberto e se o cachorrinho está no quintal, pois não o quero dentro casa. Pensando bem, por que não? Seria o menor dos meus problemas. Penso no futuro dos meus filhos. Que pena, hoje as crianças são institucionalizadas muito cedo e perdem parte do empirismo da infância com isso. Por outro lado, com pais e mães trabalhando fora, a escola é uma boa babá por um preço razoável. Ligo o computador, escrevo um pouco, revejo meu livro, verifico mídias, e-mails, viajo nas fotos arquivadas; tempos felizes. Ainda me espanto com tanta tecnologia ao alcance de qualquer um. Mais de duzentos milhões de celulares transitam ou transitaram no Brasil. Eu não tinha. Dedilho meu violão e logo paro, por preguiça. Não consigo afina-lo; está frio e as cordas se contraem. Volto a me deitar enquanto todos em casa ressonam tranqüilos. Viro ruidosamente de um lado para outro. Penso se estarei aqui amanhã ou se a morte vai me visitar e me levar.
Finalmente consigo dormir. Sonho algumas coisas agradáveis; outras não. Acordo muito cansado e, a cada dia que passa, este cansaço aumenta. Às vezes me preocupo com coisas que nem me aconteceram, mas que fico maquinando na cama sem querer, acabando por ser remetido a uma realidade alternativa que me desespera. Não consigo ler como antes. Meus óculos passaram a ser equipamento indispensável para tal, mas mesmo eles não conseguem fazer com que eu leia mais de duas ou três estrofes. Desconcentro-me com qualquer coisa. Acho perda de tempo. Livros e artigos emboloram na estante esperando por mim. Minhas pernas balançam sem que eu queira. Reprovo-as em pensamento. Que perda inútil de energia. Deveriam estar balançando na água, enquanto aprecio o pôr-do-sol. O conhecimento me faz mal e não me traz mais nenhuma alegria. Considero que perdi meu tempo com coisas irrelevantes. Os psicotrópicos que tomava para dormir tiravam meus reflexos, então resolvi parar. Fiz mal. Voltei. A possibilidade da longevidade me irrita. Não gosto de pensar que vou viver muito, mas temo a morte mais do que tudo. Meus melhores anos ficaram lá atrás, logo, que vou eu fazer com mais um monte? Que me perdoem os idosos contentes! Gostaria de cerrar os olhos e dormir como sempre fiz, mas que diabo, se não tenho culpa no cartório, por que não durmo? Por que meu sono é cheio de pavor? Talvez sejam dias ruins, quem sabe? Talvez eu esteja exagerando a realidade para entreter o leitor...

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