Cardápio da mentira

Cardápio da mentira
Ana Pamplona é membro do Coletivo Poesia de Rua




Na mesa do restaurante,
nós dois, frente a frente.
Mais o cardápio.
Fechei-o, para que primeiro me ouças:
não aprendi a jogar baralho, nem xadrez,
muito menos pôquer.
Mas tu sabes: quando minto franzo o nariz,
olho para cima, faço caretas.
Extraordinariamente, tu, não.
Quando calunio falo aos berros,
mas tu, apenas sussurra,
somente tua boca abre, aos poucos
sem a menor expressão contradita.
Mentir está na tua espantosa realidade,
falas sem ao menos esgotar teu estoque de verdades,
tantas vezes, que desta, fiquei magoada.
Não por me teres mentido e traído,
mas por não poder voltar a acreditar em ti.
E isso me dói, porque te amo.
Portanto, acuso-te formalmente,
por falsear a realidade,
por me teres roubado com a ironia costumeira
o meu direito de conhecer a verdade.
Sei que pensas que eu também minto.
E é verdade.
Então, agora permito-te abrir o cardápio, onde
lerás: as mornas mentiras sinceras e adocicadas,
recheadas com doce de leite,
sem silêncios frios e distantes,
e até com graciosos movimentos de cabeça.
E para o jantar de hoje
ofereço-lhe neste cardápio,
a minha maior mentira,
inclusive a mais interessante e fértil:
que foi iludir-te, ao pensares
que acreditei nos teus embustes.
Leia tudo e descobrirás pratos deliciosos
que me dizem respeito.
Então poderás escolher o prato de hoje.