Cartão de natal 2025

Cartão de natal 2025
Ana Pamplona é membro do Coletivo Poesia de Rua




Antigamente, muito antigamente, antes do advento da internet, costumávamos mandar cartões de natal pelo correio para amigos, familiares, clientes etc. Mesmo que não se tivesse afinidade ou afeto para com tais pessoas. Mandava-se. Mesmo que você não estivesse sendo sincero, mandava-se. O correio não reclamava, pelo contrário. Seu alvo às vezes retribuía, às vezes, não. Retribuir era regra de boa conduta, mas não importava. Simplesmente, mandava-se. Não se pode negar que sentíamos uma certa emoção ao tocar o papel do cartão ou da cartinha. Ah, essa era charmosa (me deu até vontade de escrever sobre isso, já sei, vou escrever). O fato é que, de uns tempos para cá, quase não se usa o correio para esta finalidade. Ficou mais fácil, mais rápido e mais prático enviá-los por internet.

Pois bem, no ano passado, a convite de uma psicóloga aproveitei deste benefício e mandei cartões de natal, porém, um tanto às avessas, sinceros, pelo sistema do atacado. Por aqui mesmo, através deste periódico (*). Recebi manifestações de aprovação por aquilo, e até reprimendas mudas, no entanto, resolvi repetir a dose, pois, segundo a profissional da área da psicologia, é uma forma terapêutica de catarse. Inclusive, vou insistir em alguns temas e reiterar o que foi dito ano passado e não retirarei, nem retificarei nenhum, embora minha crônica tenha tido apenas cento e cinquenta e seis visualizações. Então, repetindo minhas próprias palavras, “vai sem destinatário, nem localização. Não é míssil teleguiado. Vamos lá. Resumidamente, neste Natal, desejo que você (não necessariamente você, leitor) ”...

—  Não se preocupe com o meu peso, nem com o meu corpo; não se preocupe se estou à toa, pelo fato de estar meio aposentada; não se preocupe se estou vestida “assim” ou “assado”, e não estou bem vestida, ou adequada para a minha idade; não se preocupe com as minhas rugas, muito menos com as minhas pelancas, pois sou velha, sou idosa (veja bem, é natural), se estou usando hidratantes, ou não; não se preocupe por não estar fazendo “procedimentos” no meu rosto enrugado etc; não se preocupe se eu tenho, ou não tenho problemas familiares e se os administro bem ou mal, se sou boa mãe ou não, boa esposa ou não, se faço o certo ou o errado, se deveria fazer isso ou aquilo com os meus desafios; não se preocupe se sou, ou não, uma profissional de sucesso: rica, viajada, antenada, com milhares de seguidores; não se preocupe se estou fazendo caridade, ou não, se estou evoluindo, se estou doando cestas básicas ou mais coisas, nem se preocupe se eu negar a ajudar ou o que for; não se preocupe se eu sou de “direita”, de “centro”, ou de “esquerda”, se me engajo, ou não, em cultura “woke”, se tenho empatia ou não; não se preocupe pelo fato de que eu não uso bebida alcóolica, e nenhum tipo de droga; não se preocupe se eu gosto ou não gosto de natal e de toda essa ansiedade das festas de fim de ano... mas se lhe apetece tudo isso, seja feliz! Feliz natal!

Como já disse, esta remessa foi no ano passado, apenas reiterei. Para este ano:

—  Não se preocupe se desejo ou não desejo receber prêmios como escritora, fazer parte de academias de letras, ou participar de concursos individuais de poesias. Não desejo. Nem se preocupe com o fato, de que não uso subvenções governamentais para publicar meus livros. Estou bem assim, sou feliz como a escritora sem medalhas, sem glamours, sem reconhecimento, sem dinheiro e sem pompas que sou. Sinto muito decepcioná-los, mas é assim. Se você deseja e gosta, faça parte de tudo isso, e seja feliz! Feliz natal!

—  Não se preocupe se sou um tiquinho antissocial, se não lhe faço visitas periódicas, se não me lembro do dia do seu aniversário, se não fui ao velório de um parente seu. O clássico “oi, você tá sumida heim? ”, não cola para mim, pois, eu SOU sumida. E etc... É sobre essas coisas sociais que estou falando. Estou um pouco atrasada nisso ainda. Mas se você consegue atender todas essas demandas, parabéns. Seja feliz! Feliz natal!

Tudo isso não significa que não me importo com você. Eu me importo sim. Eu detesto esse negócio de indiferença. Penso que isso não deveria ser normal para o coração humano, muito pelo contrário. Gostaria muito, acredite, de não enxergar os seus defeitos, e, sobretudo, aceitar você, tal como você é. Este é o meu foco de crescimento desde muito tempo atrás. E olha, eu me esforço. Talvez, não tanto quanto deveria. Mas me esforço. Creio que você também...? Feliz natal...

Muito bem, chega de cartões de natal. 

Finalizo reiterando na íntegra o que disse aqui no ano passado: peço ao bom Deus que me inspire a ser uma pessoa melhor a cada dia, a fim de não incomodar a ninguém, a ponto de também precisar receber cartões de Natal sinceros. Mas se for o caso, e tiver que receber, que Ele me ajude a compreender a insatisfação que causei no outro e que eu saiba fazer exercícios básicos de autoconhecimento, para mudanças diárias para o bem. E você também. Feliz natal... o que quer que seja o natal para você! Feliz Vida!

(*) “Cartão de Natal”, edição Nº 6.504, de O Pergaminho, em 23/12/2024, ou no livro da autora, “PROESIAS”.