Consulta Conjugal

Consulta Conjugal
Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho (de Passos/MG)




O doutor Luiz Carlos Baião de Faria, italiano de nascimento e brasileiro de coração, pertence a uma espécie médica cada vez mais rara: a do clínico que não trata apenas doenças, mas pessoas. Cardiologista respeitado, atua no Hospital São José, em Passos, e mantém vínculos acadêmicos com a Universidade de São Paulo, onde também leciona. No consultório, porém, seu exercício da medicina ultrapassa as fronteiras da especialidade. Atende de forma quase generalista, como faziam os antigos médicos de família. Conhece muito — de coração, pulmão, fígado, remédios, história clínica e, sobretudo, de gente.

     É detalhista. Escuta com atenção. Observa. Pergunta. Não se contenta com respostas rápidas. Há em seu modo de exercer a medicina algo que lembra os velhos princípios de Hipócrates: ciência aliada ao cuidado humano.Talvez por isso tenha passado mais de cinquenta anos ouvindo corações alheios — ofício que exige ouvido fino, paciência clínica e certa tolerância com as surpresas que o organismo humano gosta de aprontar. Mesmo assim, há certas surpresas que a medicina não ensina a administrar.

Casado há quase cinquenta anos com Maria Auxiliadora de Brito Faria, a Dorinha — baiana arretada, temperamento firme e raciocínio rápido —, Luiz Baião imaginava conhecer boa parte das variações cardíacas da vida conjugal. Mas subestimou o espírito científico da esposa.

A cena se passa em Passos, no consultório do médico, no tradicional Edifício Dona Lela. Rotina profissional. Pacientes entram, pacientes saem, receituários se multiplicam, e o estetoscópio vai de um peito a outro como quem recolhe confidências do músculo cardíaco.

Em determinado momento, a secretária bate à porta e anuncia, com a serenidade administrativa de quem não imagina o pequeno terremoto narrativo que está prestes a provocar:

— Doutor, tem mais uma cliente para o senhor atender.

Nenhum nome. Nenhuma pista. Nada que permitisse ao cardiologista preparar o espírito.

O doutor ajeitou o estetoscópio, alinhou alguns papéis sobre a mesa e fez o gesto clássico da medicina universal:

— Pode entrar.

Entrou.

Era ninguém menos que a própria esposa, em carne, osso e — como se veria depois — em cheque. Mas em cheque — e de um modo que deixava o marido, de certa forma, em xeque.

Dizem que o doutor Baião, homem acostumado a lidar com arritmias, sopros e palpitações, experimentou naquele instante um fenômeno cardíaco raríssimo: surpresa conjugal aguda.

Mas médico que é médico mantém a compostura mesmo diante de emergências domésticas.

Indicou a cadeira, assumiu a expressão clínica e iniciou a consulta:

— Muito bem… vamos examinar.

Estetoscópio no peito, concentração profissional, e veio então o momento clássico da medicina brasileira:

— Diga trinta e três.

     — Trinta e três — respondeu Dorinha, com a tranquilidade de quem parecia avaliar não apenas o pulmão, mas também o currículo do examinador.

A rigor, Dorinha precisava de uma consulta. Mas quem conhece baiana de raciocínio rápido suspeita que havia ali um objetivo mais profundo.   Provavelmente já sabia muito bem o que tinha. O que queria mesmo era avaliar o que o marido tinha. Ou melhor: o que o marido sabia. E, talvez, se ainda sabia.

     A consulta seguiu dentro do protocolo médico: perguntas, respostas, ausculta, diagnóstico provável e aquela expressão pensativa que os médicos adotam quando estão refletindo — ou quando querem parecer que estão refletindo.

Encerrado o atendimento, veio o momento administrativo.

Dorinha fez questão de pagar a consulta.

Não em dinheiro.

Não em cartão.

Mas em cheque.

Cheque do próprio marido — bem verdade, preenchido pelo próprio marido.

Ou seja, Luiz Baião realizou um feito raro na economia doméstica: trabalhou, atendeu, preencheu o cheque e recebeu de si mesmo, com a intermediação conjugal da paciente — uma modalidade inédita de convênio matrimonial que a medicina, até hoje, não conseguiu classificar.

Ao olhar o documento, dizem que o cardiologista murmurou, entre divertido e resignado:

— Ah… essa foi do peru. Nem no País da Bota eu tinha visto uma dessas.

E foi mesmo.

     Uma dessas histórias que, na sociedade, vira anedota; no lar, vira lembrança; e, para os amantes de uma boa crônica, vira uma pândega das boas.  Porque, no casamento, existem muitas especialidades. Mas nenhuma supera a da esposa que, de vez em quando, resolve examinar o próprio médico. E cujo diagnóstico final — quase sempre — é dela.

No caso de Luiz Baião e Dorinha, essa curiosa medicina conjugal já dura quase cinquenta anos. Tempo suficiente para provar que certos corações — quando bem acompanhados — atravessam a vida inteira sem perder o compasso.

     São as Bodas de Ouro à vista — não sob encomenda.,

 Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista