CONTRAFLUXO
Ele acorda cedo, não por disciplina artística, mas porque a conta de luz não respeita inspiração. O violão encostado no canto ainda guarda a canção da madrugada — aquela que veio inteira, melodia e verdade, como se fosse um sopro antigo atravessando o tempo para pousar em suas mãos. Ele grava num celular simples, desses que às vezes falham mais do que ajudam, mas segue, porque quem nasceu com música dentro não tem opção de silêncio. É desses compositores que escrevem com a alma inteira, que não fazem refrão pensando em algoritmo, nem verso moldado para caber em coreografia de quinze segundos; faz música como quem planta, sabendo que pode demorar, que pode nem dar fruto imediato, mas ainda assim insiste, porque acredita.
Mas o mundo lá fora tem pressa — e tem dono. Enquanto ele lapida acordes, há um mercado fabricando sucessos em série, embalando sons que chegam prontos, mastigados, repetidos até virarem verdade. Não é que falte talento do outro lado — às vezes até tem — mas sobra máquina, e máquina não sente, só empurra. E aí a canção dele, tão cheia de vida, se perde no barulho: não toca na rádio, não viraliza, não entra na playlist patrocinada; fica ali, como carta bonita sem destinatário.
E ele segue. De dia, vira outro: faz freela, dá aula, grava jingle, corre atrás. À noite, volta a ser quem é de verdade — ou tenta, porque antes da poesia vem o boleto: luz, água, condomínio, IPVA, IPTU, escola dos filhos, a vida batendo na porta com a pontualidade de um cobrador sem piedade. E ele, que queria viver de harmonia, precisa negociar com o descompasso. É um operário da arte, daqueles que constroem sem garantia de aplauso, que levantam versos como quem levanta parede — tijolo por tijolo, esperança por esperança — e mesmo cansado, mesmo invisível, continua, porque há uma teimosia bonita em quem cria.
Ele sabe que sua música talvez nunca seja cantada por multidões, mas também sabe que, quando alguém escuta — um alguém só que seja — e sente, de verdade, já não foi em vão. E assim ele vive: entre a dureza do mundo e a delicadeza daquilo que insiste em compor, sem palco cheio, sem luz de destaque, mas com algo que nenhum sucesso fabricado consegue comprar: verdade. E é isso que mantém acesa a chama, mesmo quando o vento da indústria sopra contra.
AC de Paula é dramaturgo, poeta e compositor

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