Crônica: Sobre o crime - II

Rubem Alves (1933-2014)

Crônica: Sobre o crime - II
‘O Pergaminho’ publica crônicas de Rubem Alves por ter recebido autorização escrita do próprio autor




Quando escrevo uma crônica, a sensação é como se estivesse patinando: deslizo sobre as palavras. Mas quando vou dar uma aula sobre um assunto complicado, é como se estivesse escalando uma montanha: cada passo tem de ser pensado, cada passo exige esforço. Não estou patinando. Estou escalando uma montanha chamada “crime”. E ficaria feliz se você me acompanhasse vagarosamente, pensando seus pensamentos.
Os crimes são cometidos por causa de um “objeto de desejo”: maçã vermelha... Como desejo essa maçã! Se eu a tivesse, se eu a comesse, seria feliz! Mas o caminho até a árvore onde ela cresce é longo e difícil! E não há certeza alguma de que, ao final, a colherei. Não sei se o caminho leva até ela. Se chegar a ela, talvez será tarde demais! Estarei velho. Quero comê-la agora!
Mas que coisa estranha! Vejo tantas pessoas ao meu redor comendo a maçã do meu desejo! E eles não mostram sinais de esforço e cansaço. Parece que não tiveram que trilhar o longo caminho para apanhá-la! Pergunto. Eles me dizem que é fácil. Basta seguir um outro caminho, diferente daquele que estava à minha frente. No seu início se encontra uma advertência: “Caminho proibido”. Então é isso? O caminho permitido é o caminho apertado e difícil, de resultados incertos. E o caminho proibido é o caminho fácil e largo, de resultados imediatos. Somente um tolo entraria pelo caminho permitido. Para quê, se existe o outro?
Todo crime é cometido para se apossar da “maçã dourada”. Nos crimes de amor a “maçã dourada” é uma pessoa, objeto da paixão. São comoventes. Comoventes porque neles se revela a tolice do coração. Quem mata por amor o faz compelido por um surto de loucura de curta duração chamado “paixão”. Mas o apaixonado não sabe disto. Os apaixonados, sem exceção, têm certeza sobre o seu amor e acreditam que ele será eterno. São uns tolos. Se tivessem lido poesia seriam mais sábios. O Vinícius sabia: “Que não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.” Infinito enquanto dure... O “enquanto” já anuncia que o infinito não será eterno. Todas as chamas se apagam. Mas, depois de apagada a chama efêmera, uma outra chama se acende, talvez de luz mais bonita que a anterior. Mas o apaixonado, tolo, não sabe disso. E comete o crime, fazendo a mais tola declaração de amor que se pode fazer: “Não posso viver sem você...” (Claro que pode!) O apaixonado comete o crime a fim de tornar eterno aquilo que é efêmero. “Morta, ela será sempre minha...” Sempre existiram, sempre existirão. Sofrimento passageiro. Amputação de dedo. Não ameaçam a vida social. Mas há crimes por uma outra “maçã dourada” chamada “poder”. Esses são câncer. Esses matam a sociedade. Como estão matando a nossa.
Dizem os poemas sagrados que Deus, ao criar, deu ao homem um delicioso objeto de amor, um paraíso onde todos os seus desejos podiam ser satisfeitos. Mas a serpente, psicanalista astuta, conhecia melhor os segredos do coração humano: no paraíso havia um desejo, um único desejo que não podia ser satisfeito. “Foi isso que Deus disse, que vocês não poderiam comer dos frutos das árvores do jardim?”, e ela disse serpentinamente, dando uma colher de chá aos seus interlocutores. “Não, não foi isso que Deus disse. Disse que poderíamos comer de todas as árvores, menos uma: a árvore do conhecimento. Veja com os seus próprios olhos: no seu tronco está escrito: ‘Comer dessa árvore é crime. Quem comer vai morrer!’” “Vai nada”, retrucou a serpente. “Conversa para intimidar vocês. Deus proibiu que vocês comessem daquela árvore porque ele sabe que, se vocês comerem, vocês serão como Deus, iguais a ele...” No paraíso todos os desejos de amor estavam satisfeitos. Mas, para que os frutos do amor fossem gozados era preciso que se renunciasse ao uso do poder.
O poder é o verme que apodrece o fruto do amor. Todo mundo sabe isso por experiência própria. Mas ninguém acredita. Porque a promessa contida no fruto do poder é mais forte que a promessa contida no fruto do amor. Pois o que o Poder promete é que, quem o comer, poderá comer todos os frutos do amor: “será como Deus...” O Poder é o gênio que mora na garrafa. Quem não faria tudo para ter um gênio engarrafado? As seduções do Poder são mais fortes que as seduções do Amor. O Poder é Deus forte. O Amor é Deus fraco. (Os pais ficariam mais tranquilos se a filha se casasse com um homem rico, que ela não ama, que se ela casasse com um homem pobre, que ela ama... Os pais – desiludidos – sabem que o amor é coisa passageira; mas o dinheiro é coisa permanente...)
Na última das suas tentações o Diabo leva Jesus a uma montanha muito alta e lhe mostra todos os reinos da terra. “Tudo isso te darei se, prostrado, me adorares”, ele diz. Os poetas e místicos, ao invés de falarem abstratamente sobre as coisas, falam por meio de imagens. Tolos são aqueles que interpretam as imagens literalmente: o Diabo, um ser com focinho de porco, chifre, rabo e cheiro de enxofre... Mas “Diabo” é apenas uma imagem cujo sentido é o desejo de poder. O desejo de poder mora dentro de cada um e permanentemente nos tenta. Convida. O que ele oferece é desejável. Os desejos que movem os criminosos estão presentes na alma de todos. Quem não gostaria de ter poder absoluto – ser como Deus? Ele é o gênio da garrafa, que promete realizar nossos desejos. Curioso: ele tenta Jesus com poder absoluto. Mas, para ser tentado, era preciso que Jesus não tivesse poder absoluto. Só somos tentados naquilo que não possuímos. Sou tentado a me apossar de algo que não possuo. Conclusão: O Diabo é “poder sem amor”. Deus é “amor sem poder”.
Vá 0a uma locadora de vídeos. Procure o filme O Advogado do Diabo. Se já o viu, veja de novo. Se não o viu, veja pela primeira vez. Ele é a versão moderna da última tentação de Cristo.
O dinheiro tenta porque nele se encontra o poder. Ama-se o dinheiro pelo poder que nos dá.
O que leva os homens a invocarem os deuses? Os homens invocam os deuses a fim de se apropriarem dos seus poderes. Religiões são artifícios humanos que supostamente têm o poder de fazer os deuses realizar os nossos desejos. Os deuses são invocados, não por serem amados, mas por serem poderosos. O que os homens desejam não é Deus mas o milagre. O milagre é um atalho para se chegar à “maçã dourada”. Jesus sabia disso e acusou as multidões que o seguiam: “Vós me buscais não porque vistes sinais mas porque comestes os pães e vos fartastes”. Ai do Deus que não realiza milagres! Deuses que não realizam milagres, isso é, que não atendem os desejos dos seus adoradores, são logo abandonados e trocados por outros. Um Deus apenas bom é um Deus fraco. Um Deus fraco é um Deus que não tem poder para realizar o meu desejo. De que me vale um Deus que não realiza o meu desejo?
Sobre isso vale a pena gastar uns minutos e ligar a televisão num desses programas religiosos que ficam no ar 24 horas por dia. O que prometem eles? Prometem a “bênção”. O que é a “bênção”? É a realização do desejo de cada um. E o que dizem os profetas desses deuses? Eles ensinam as “receitas” que, se seguidas, farão com que Deus faça a vontade de quem pede. É preciso esfregar a garrafa de maneira correta para que o gênio acorde e saia. Esfregada a garrafa segundo a receita o gênio sai e a bênção acontece. Cada religião proclama ter o monopólio da receita certa.
Infelizmente os deuses das religiões são imprevisíveis e parecem só ter poder para pequenos milagres como curar dor de cabeça e fazer com que o marido deixe de bater. Milagres pra valer, como ter um carro importado, fazer uma viagem à Europa ou parar a guerra – esses milagres parecem ser grandes demais para o poder dos deuses das religiões. Eles não atendem nem mesmo as orações do Papa que, continuamente, ora pela paz. Ou Deus não quer a paz (e nesse caso não é Deus) ou quer a paz, mas não tem poder para realizá-la (caso em que ele não é Deus também).
(Por favor: não me acusem de impiedade. Sou místico. Para mim o sagrado está espalhado pelo universo inteiro. Onde está a beleza, onde está a vida, ali está o sagrado. Adoro o “Grande Mistério” sem lhe pedir coisa alguma. Basta-me ouvir a sua música – por vezes de beleza trágica.)
Não é assim com o dinheiro. Dinheiro tem poder. Com o dinheiro todas as coisas são possíveis. Não foi por acaso que Shakespeare o chamou de “Deus Visível”. Com o dinheiro não é preciso fazer invocações ou promessas: ele realiza o desejo daquele que o possui imediatamente. Pelo dinheiro, então, não valerá a pena andar pelo caminho proibido? O caminho do crime? O caminho permitido é muito difícil e lento e, na maioria das vezes, não leva à maçã dourada... (a aula continua...)