De novo aos mestres, com carinho
‘Sapientia: nenhum poder, um pouco de saber, e o máximo de sabor...’
Encontrávamos, no último capítulo de nossa novela gastronômica, às portas dos restaurantes reais, dos quais saiam pessoas esquálidas, amarelas, muitas delas mal podendo andar, tal era a sua fome. Os teóricos da cozinha real, despedidos por justa causa, de malas prontas, diziam-se injustiçados, alegando que a aversão pela comida desenvolvida pelos freqüentadores dos restaurantes reais, como resultado de sua culinária, havia sido plenamente compensada pelo fato de que todos saiam dos mesmos sabendo de cor os catecismos da consciência crítica. Prova disso era o fato que todos eles apresentavam azia - sendo que é bem sabido que a consciência crítica é, na maioria dos casos, a manifestação superestrutural da azia, sua causa infra-estrutural.
O rei contratou outros “chefs” para sua cozinha, e achou de bom alvitre fugir dos teóricos especialistas em coisas grandes (a menor unidade com que trabalhavam os dialéticos era “classe social”), e procurou teóricos especializados em coisas menores, pois a comida tem a ver com pessoas concretas, de carne e osso.
Vieram os especialistas em digestão. A melhoria foi grande, pois digestão e comida estão intimamente ligadas. Sua teoria era simples. Diziam que para se fazer comida boa é preciso compreender os processos digestivos, os processos pelos quais o organismo desconstrói e reconstrói a comida. Somente uma compreensão dos processos digestivos pode nos levar a restaurantes científicos.
Começaram por observar que os processos digestivos passam por fases distintas. A digestão de um nenezinho é diferente da digestão de um menino de dois anos. O nenezinho não tem dentes. Encontra-se numa fase pré-mastigatória. Sua digestão só pode processar alimentos pré-mastigatórios. Um menino de dois anos, entretanto, já entrou na fase mastigatória. Prova disso são os seus dentes. Pode mastigar alimentos sólidos. Do seu cardápio, portanto, devem constar cenouras, tomates, coxinhas de galinhas, arroz e feijão. Cada fase é distinta, sucessivamente, até os velhinhos, que entram finalmente na fase pós-mastigatória.
E foi assim que desenvolveram suas receitas culinárias de uma forma peculiar e inovadora, ao contrário do que fazem as cozinheiras, ignorantes e nada sabendo de ciência. Embora tenham vaga notícia das fases do processo digestivo (pois sabem diferenciar mamadeiras, papinhas e bifes, jamais fritando bife para o nenê e fazendo mamadeira para o patrão), o fato é que elas preparam os seus pratos basicamente a partir de considerações de gosto. Mas “gosto”, como se sabe, é uma categoria não-científica, não podendo ser objeto de pesquisa. O fato é que não pode haver uma teoria “científica” da culinária que tome o “gosto” como ponto de partida. As cozinheiras, ao invés de invocar uma teoria anterior para justificar os seus pratos, se orientam pele cara de alegria das pessoas, ao comer, e pelo “quero mais”. Sem que elas soubessem, a sua epistemologia culinária foi pela primeira vez enunciada por Engels que disse que “a prova do pudim é co-mê-lo”.
Os novos teóricos da cozinha real, proibidos pelas regras da objetividade científica de levar em consideração o prazer e a alegria dos que comiam, concentraram-se na análise laboratorial dos resultados finais do processo digestivo, a fim de verificar se a digestão havia se processado de forma correta, sendo que os resultados eram animadores.
Isso deu azo para que se desenvolvesse uma fantástica pletora de pesquisas e teses sobre o assunto, de tal forma que, dali para frente, só se levavam a sério os cozinheiros que elaborassem pratos baseados nas várias fases operacionais da digestão. Cozinheiro, para ser respeitado, tinha de falar a linguagem dos processos digestivos e suas respectivas fases. Quem falasse sobre bacalhoada, feijoada, ensopado, galinhada, frango ao molho pardo, torresmo, moqueca, peixe na telha era logo desprezado como acientífico e primitivo e perdia o emprego.
Cumpre relatar que o rei, monarca democrático, achara que o que era obrigatório para o povo teria de ser obrigatório para a corte. Por isso mandara embora o cozinheiro real, que nada conhecia de dialética e das fases da digestão, embora tudo soubesse dos prazeres da comida. E a partir daquele momento a corte inteira passou a comer a comida preparada pelos cozinheiros científicos, os dialéticos e os digestivistas. Sob a culinária dos primeiros a corte emagreceu e ficou chata. Sob a culinária dos segundos ela recuperou o peso. Mas o monarca notou que não recuperou a alegria e os risos que marcavam os banquetes que o velho cozinheiro preparava, à semelhança da Babette. E o rei teve saudades dos tempos antigos. Mandou chamar o velho cozinheiro. E lhe perguntou o segredo da comida que ele fazia. “Majestade” ele disse, “nada sei sobre dialética ou digestão. Só sei que a comida, para alimentar, tem de dar prazer para o corpo e alegria para a alma. Culinária, majestade, não é ciência. Ela é arte, ao lado da música, da pintura, da escultura, da poesia. E o que eu sei é o seguinte: quando o corpo sente prazer e a alma sente alegria a comida alimenta e o corpo fica forte...” O rei, convencido por experiência da verdade das palavras do velho cozinheiro, despediu os cozinheiros científicos e nomeou o velho cozinheiro artista ministro da comedoria do reino. E desde esse dia o povo comeu, gostou, engordou, ficou forte, e a sua alegria não teve fim.
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Essa é uma parábola que dedico aos que ensinam, porque ensinar é igualzinho a cozinhar. O professor é um “chef” que prepara e serve refeições de palavras aos seus alunos. Durante anos consecutivos os nossos professores têm estado aprendendo teorias científicas sobre a educação, achando que é assim que se formam professores. Existe, de fato, uma ciência da educação, como também existe uma ciência do piano. Mas a ciência da educação não faz um professor, da mesma forma como o conhecimento da ciência do piano não faz um pianista. Muitos professores maravilhosos nunca estudaram as disciplinas pedagógicas. Se os alunos refugam diante da comida e se, uma vez engolida, a comida provoca vômitos e diarréia, isso não quer dizer que os processos digestivos dos alunos estejam doentes. Quer dizer que o cozinheiro-professor desconhece os segredos do sabor. A educação é uma arte. O educador é um artista. Aconselho os professores a aprenderem o seu ofício com as cozinheiras.
‘O Pergaminho’ publica crônicas de Rubem Alves por ter recebido autorização escrita do próprio autor

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