Enquanto a Fila Anda
A fila andava. Pouco, é verdade, mas andava. Um passo tímido, quase um ensaio. A vida, não. A vida permanecia ali, estacionada entre a senha 465 e a promessa de atendimento prioritário que nunca parecia prioritário o suficiente. Eu estava na fila havia tempo demais para ser pouco e pouco demais para ser digno de desistência. Nessas horas, a gente aprende que o tempo não passa: ele observa. Olha de cima, com aquele ar burocrático de quem sabe que ninguém vai reclamar.
À minha frente, um senhor discutia com o nada. Atrás, alguém suspira como quem paga uma prestação invisível. A fila era um retrato do país em alta definição: todos esperando, poucos entendendo, ninguém realmente certo de por que ainda estava ali.
A vida, essa sim, tinha parado. Parou no meio do caminho, sem aviso prévio, como o elevador antigo. O botão de emergência não funcionava. O de paciência, menos ainda. Só o de resignação acendia fácil.
Enquanto isso, a fila avançava um centímetro e exigia comemoração contida. Um passo era quase uma vitória cívica. Dois, um milagre estatístico. O problema é que a vida não acompanhava o movimento. Ficava ali, encostada na parede do tempo, esperando um carimbo que nunca vinha.
Pensei que crescer devia ser isso: aprender a ficar em filas cada vez mais longas para resolver assuntos cada vez menores. Fila pra pagar, fila pra reclamar, fila pra provar que você existe. Em algumas, pedem documento. Em outras, só silêncio.
A fila ensina muito. Ensina a não criar expectativa. Ensina a observar o chão. Ensina que o futuro cabe inteiro em cinco passos — e mesmo assim pode ser adiado. Alguém anunciou que o sistema tinha caído. Ninguém se surpreendeu. A vida já estava no chão fazia tempo. A fila, disciplinada, permaneceu em pé, como se dissesse: cair é uma coisa, parar é outra.
Quando finalmente cheguei ao balcão, já não sabia mais o que precisava. A vida tinha ficado para trás, sentada naquelas cadeiras de plástico duro, esperando ser chamada pelo nome errado. Saí sem resolver nada, como manda o protocolo. A fila seguiu andando. A vida, não. E eu aprendi ali, entre um passo e outro, que há dias em que a gente não vive: a gente aguarda.
Aguarda e observa. Observa demais. Observa a rachadura na parede que parece um mapa do país, observa o cartaz desbotado prometendo agilidade, observa o funcionário que evita o olhar como quem evita assumir paternidade. A vida, ali, vira espectadora de si mesma, sentada, braços cruzados, esperando ser chamada por um alto-falante rouco.
Na fila, ninguém fala sobre o futuro. O futuro não frequenta repartições. Fala-se do calor, da lombar, do sistema que sempre cai — como se fosse um velho conhecido que tropeça toda manhã. Fala-se baixo, porque até a indignação aprendeu a cochichar. A fila anda mais um pouco. Dois passos. Três, talvez. O suficiente para reacender uma esperança breve, dessas que duram menos que um cafezinho morno. A vida continua parada, fazendo hora extra no mesmo ponto, como quem perdeu o ônibus e desistiu de correr.
Percebo que a fila tem vocação para movimento. Mesmo lenta, mesmo inútil, ela insiste. A vida, ao contrário, às vezes se recusa. Faz greve branca. Fica ali, imóvel, exigindo melhores condições para continuar. Penso que talvez a vida seja isso: uma espera mal explicada entre uma senha e outra. Um intervalo onde a gente envelhece sem perceber, enquanto a fila registra tudo com precisão contábil — cada passo, cada suspiro, cada minuto roubado.
Chamam outra senha, outro nome. Não é o meu. Nunca é. A fila avança de novo, solidária apenas consigo mesma. A vida boceja. Cansada, pede água, pede sentido, pede qualquer coisa que não seja mais um formulário. Quando finalmente saio do prédio, a rua me devolve ao mundo sem cerimônia. Os carros passam, a gente corre, o tempo finge que anda. A fila ficou lá dentro, fazendo seu trabalho. A vida vem comigo, meio manca, cabisbaixa, meio desconfiada, tentando retomar o passo.
Andamos juntos por alguns metros. Depois ela para outra vez. E eu continuo. Eu sigo, porque aprendi cedo: há dias em que a fila anda, a vida emperra, e mesmo assim a gente vai. Afinal, navegar não é mais tão preciso, mas seguir a trilha da vida, é fundamental!
AC de Paula é dramaturgo, poeta e compositor

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