ENTRE IMPOSTOS E ESPERANÇA
Ele pagava impostos, mas sonhava em parcelar a esperança, antes que fosse tarde. Passava longe do painel do impostômetro continuamente exposto em uma rua central da cidade. Os valores o assustavam. Ele pagava impostos como quem reza um credo torto: sem fé, mas com medo do castigo. Pagava o imposto de renda, o imposto indireto, o imposto invisível embutido no pão francês e na promessa de futuro. Pagava até quando não entendia — e quase nunca entendia.
Era um homem correto, daqueles que guardam o comprovante por cinco anos, mesmo sabendo que a memória do país não dura cinco minutos. Declarava tudo: ganhos, perdas, ilusões. Só não declarava o cansaço, porque não havia campo com tal opção. Não sonhava grande. Sonhava pequeno, como mandam os manuais de sobrevivência nacional. Um sonho modesto: parcelar a esperança em doze vezes sem juros. Talvez vinte e quatro, se coubesse no orçamento emocional. Não queria muito: um mês que sobrasse algum dia no fim do salário; um governo que falasse baixo; uma notícia que não doesse logo ao acordar.
Ele atravessava a cidade como quem atravessa um texto mal pontuado: tropeçando em vírgulas, desviando de parênteses, esperando um ponto final que nunca vinha. No ônibus lotado, pensava que o país se parecia com aquilo: todos apertados, ninguém confortável, e sempre alguém dizendo que ainda dá para ir mais um pouco para trás.
Pagava impostos também sobre os sonhos: Sonhou com casa própria. IPTU emocional? Sonhou com aposentadoria. Taxa de risco existencial. Taxa residual de esperança. Sonhou com justiça. Multa por excesso de imaginação. Mesmo assim, insistia. Todo mês, além do boleto, separava um restinho de esperança. Guardava num envelope invisível, daqueles que não rendem juros, mas sustentam o dia. Às vezes rasgava um pedaço — uma manchete, uma fila, uma resposta automática — mas colava com fita adesiva chamada teimosia.
Jogava na mega sena. Sabia da quase impossibilidade absoluta de acertar, mas se permitia ao menos sonhar. Sabia que trabalhar mal daria para viver, quanto mais enriquecer. No máximo, envelhecer com alguma dignidade, se o prazo não fosse prorrogado. Ainda assim, pagava. Porque havia aprendido cedo que neste país quem não paga imposto paga com o corpo, com o tempo, com o silêncio.
À noite, antes de dormir, fazia contas que não fechavam e orações que não subiam. Pensava se um dia a esperança venceria a inflação moral. Se haveria um índice oficial para medir o quanto ainda dá para acreditar. Adormecia com a certeza provisória de quem vive no gerúndio: estava pagando, estava sonhando, estava aguentando.
E no dia seguinte, lá ia ele outra vez — pontual, invisível, um homem comum sustentando o país com impostos, paciência e a ousadia secreta de ainda acreditar que a esperança, quem sabe, um dia quite seu saldo devedor. Desistir? Jamais!
AC de Paula é dramaturgo, poeta e compositor

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