ENTRE SEDES E SEDE
A sede do poder tupiniquim é de concreto e vidro, arquitetonicamente moderna. Já a sede de poder não se armazena em bebedouros pelos corredores; costuma viver camuflada de boas intenções. Em Brasília, a sede do poder exibe linhas retas, rampas suaves e promessas climatizadas. rampas suaves, tão suaves que escorregam promessas. O povo entra pela foto, mas sai pela legenda.A sede de poder, essa mais antiga, dispensa arquiteto, circula à vontade e se alimenta de discursos recicláveis.No Planalto, a democracia é moderna, tem arquitetura assinada, pé-direito alto e voz baixa. Muito baixa. Para não incomodar quem manda. O Congresso discursa em estéreo: um ouvido atento ao povo, o outro colado no mercado. E o Supremo, de toga e latim, fala difícil —porque justiça simples dá muito trabalho. A democracia brasileira mora ali, mas paga aluguel alto. Entra elegante nas cerimônias, sai magra nas decisões. A sede do poder é ampla; a democracia, apertada. No Planalto, quem manda sobe rampas. Quem espera, desce expectativas. E enquanto a sede de poder bebe água mineral importada, o povo aprende a não ir com sede ao potee a engolir a própria secura.
Em Caracas, a sede do poder tem rosto, tem voz em volume máximo, tem mural, slogan e vigília. Mas a sede de poder ali é tão intensa que seca a praça antes mesmo da eleição. A democracia venezuelana resiste como planta em vaso pequeno: não morre, mas não cresce. Porque a sede de poder prefere o controle à sombra compartilhada. Em Caracas, o poder é mural e talvez imoral. É rosto pintado, slogan em caixa alta, microfone sempre ligado. A democracia ali é resistente, não porque seja forte, mas porque aprendeu a sobreviver com pouco oxigênio. O palácio observa a praça, a praça observa o palácio,e ninguém sabe ao certo quem vigia quem. O voto existe, mas anda escoltado, com medo de atravessar a rua. A democracia venezuelana é como rádio antigo: funciona, mas só pega uma estação.
Já em Washington, o poder é clássico, colunas gregas sustentando discursos modernos, uma democracia de exportação, com manual, garantia e exceções bem explicadas. Lá, o povo acredita que escolhe, o mercado confirma, e a bandeira cobre o resto. Quando a democracia tropeça, chamam de “incidente”. Quando cai, de “processo em curso”. O Capitólio é templo,mas também palco. E às vezes o roteiro falha,os figurantes invadem a cena achando que o espetáculo é deles.
No fim, Brasília, Caracas e Washington não são tão diferentes assim. Mudam as cores, os sotaques, as estátuas. O poder sempre se senta em cadeiras altas para parecer maior do que o povo em pé. A democracia, coitada, vive de promessa em promessa, como artista sem cachê: aplaudida nos discursos,esquecida no contrato.
Em Washington, a sede do poder tem colunas clássicas, ar de templo e manual de instruções. A sede de poder, no entanto, anda de terno sob medida , cabelo orange e fala em nome da liberdade, e comanda desatinos com sotaque financeiro, travestidos de causa nobre. Ali, a democracia funciona —com ressalvas, rodapés e letras miúdas. Quando tropeça, chamam de crise. Quando sangra, de processo. Quando exagera, vira espetáculo transmitido ao vivo, um show midiático. No fim, muda o endereço, mas não o impulso. A sede do poder é fixa. A sede de poder é itinerante. Porque entre palácios, colunas e murais, o problema nunca foi a arquitetura nem o discurso bem ensaiado. O problema sempre foi quem confunde sede de poder com vocação para servir. A democracia, educada, aprendeu a esperar. Espera a hora certa, o clima político,o momento adequado — como se justiça também precisasse de autorização prévia.
Os donos do poço falam em equilíbrio, responsabilidade, governabilidade., mas de olhos grandes nos poços alheios. Distribuem copos, medem goles e explicam, didaticamente, por que nunca é o momento de beber demais. O povo observa. Às vezes acredita. Às vezes desconfia.Mas segue ali, com sede suficiente para reconhecer quem bebeu além da conta.Porque a democracia não morre de golpe. Ela se cansa. E nada cansa mais do que ver a sede de poder sempre saciada em nome de todos.
“Entre Sedes e Sede” é, assim, um retrato do Brasil que insiste em acreditar na democracia enquanto aprende, a duras penas, a distinguir quem constrói instituições de quem apenas aprende a beber nelas, mas é sempre bom lembrar que; água demais mata a planta!
AC de Paula é dramaturgo, poeta e compositor

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