ESPELHO TRINCADO 

ESPELHO TRINCADO 
AC de Paula é dramaturgo, poeta e compositor




O Brasil acorda todo dia olhando o mesmo espelho, mas insiste em discutir qual rachadura é culpa de quem. De um lado, o operário que virou mito, o mito que virou processo, o processo que virou narrativa, e a narrativa… bem, virou absolvição técnica — dessas que a lei permite e o povo desconfia. Ele fala grosso com os bancos e manso com os banqueiros, abraça o pobre com discurso e governa com planilha. É pai, é avô, é sobrevivente. Caiu, levantou, voltou. No Brasil, ressuscitar politicamente é quase política pública.

Do outro lado, o capitão que virou messias, o messias que virou meme, o meme que virou inquérito. Falou em Deus com a boca cheia, mas esqueceu que milagre não cobre nota fiscal. Ele governa como quem faz live: sem roteiro, sem filtro, e com um ódio patrocinado pela saudade da farda. Prometeu limpar tudo, mas confundiu vassoura com tapete e empurrou a sujeira pra debaixo da cloroquina.

Um bebe metáfora , O outro bebe  polêmica . Um fala em inclusão social, o outro em exclusão seletiva . Ambos dizem amar o povo, mas nenhum deles pega fila de SUS sem fotógrafo. Um dança com a democracia, às vezes pisa no pé Outro  briga com ela, quase sempre quer dar rasteira. Um governa com coalizão, o outro com colisão. E o povo? Ah, o povo é figurante fixo nesse teatro de vaidades. Aplaude, vaia, sofre, paga ingresso caro e ainda limpa o chão no final. No fim das contas, não são dois homens. São dois estilos de poder disputando o mesmo país cansado.

Um promete futuro olhando pelo retrovisor. O outro promete ordem brigando com o presente. E o Brasil segue… feito esse espelho trincado: não sabe se conserta, se troca, ou se aprende, finalmente, a não se cortar com a própria imagem. No fim — e sempre há um fim, mesmo para quem se acha eterno — vem ela: a História. Não vota, não grita, não usa camiseta de time nem boné , nem bandeira. A História não tem lado, tem memória. Não esquece discurso bonito nem perdoa bravata vazia.

Anota tudo. Inclusive o que foi dito “em nome do povo”. Um não escapa do rodapé dos livros, onde as letras miúdas explicam o preço das alianças e o custo das concessões. Outro não foge das páginas duras, onde constam datas, atos, omissões e o silêncio que grita quando o poder escolhe não agir.

A História não prende, mas condena.  Não absolve por narrativa, nem por curtida, nem por voto. Quando as luzes se apagam e os palanques viram sucata, ela permanece, fria, exata, implacável. E ali, sem mito, sem messias, sem operário e sem capitão, resta apenas o registro: passaram. E o Brasil… pagou a conta, como sempre. Eles esquecem que suas estorias, fatalmente vão entrar para a história.