Estacionamento para celulares

Estacionamento para celulares
Ana Pamplona (de Formiga)




Preciso de férias!! Urgente! — dizia Padre Camilo puxando os cabelos de forma teatral e não muito convincente.

— Mas Padre, como assim? As aulas reiniciaram há apenas três semanas e o senhor já está estressado? — retrucou Raquel Dantas, diretora da escola em que o padre lecionava.

— Minha filha, não é questão de estar estressado, é de SER estressado — e disse isso pontuando bem a palavra ser — pois esses alunos de hoje acabam definitivamente com a nossa sanidade mental!

Padre Camilo era o pároco da Igreja e também professor do colégio que atendia a população do bairro.

— Padre, meu querido amigo, se o senhor, que é um homem de Deus assume ser estressado a esse ponto, imagine nós, professores comuns, que nem somos tão santos assim! — disse isso dando boas risadas.

Raquel e Padre Camilo eram amigos e colegas de magistério de longa data, tinham até certa intimidade, a qual permitia brincadeiras e puxões razoáveis de orelhas. Depois de algumas piadas e gracejos, o padre disse:

— Mas, Raquel, você não me chamou aqui para medirmos nossos graus de stress, não né?

— Não, padre, infelizmente. Chamei-o porque há uma reclamação contra o senhor, com todo respeito — e a diretora disse isso colocando as mãos postas ao peito, com leve curvatura da cabeça, em sinal de “namastê”. 

— Nãããão...sério?? Mas não é possível!! Quanta injustiça! Como essas mães gostam de reclamar de mim! O que foi dessa vez? 

— Realmente, padre, uma injustiça, não? Trata-se do seguinte: as mães dos alunos das três classes do Terceiro Ano estão reclamando, que o senhor tem confiscado os celulares dos filhos delas e que esse fato é irregular...

— É mesmo? Ó.… que coisa heim? — e o padre fez um leve muxoxo com a boca.

— Sim senhor. O que me diz? É verdade? O senhor sabe, por acaso, que há uma lei federal proibindo o confisco dos aparelhos e que já tivemos alguns problemas por causa disso aqui, não?

— Hum hum... sei sim. Mas a reclamação delas não procede. Na verdade, eu não confisco os aparelhos. Eu apenas peço, com educação, que os alunos os depositem dentro do porta-celular coletivo. Eles concordaram, claro, a princípio reclamando um pouco, mas agora está tudo bem. Aliás, você viu que genial? Foi a nossa amiga Leide Dai, professora de Artes, quem o projetou (o porta-celular coletivo) e confeccionou, com toda a sua criatividade para artesanato. A peça, — muito bem-acabada, por sinal — feita em tecido floral, permanece todo o tempo pendurada na parede ao lado do quadro negro, bem de frente para os alunos. É claro, que os oriento a colocarem os celulares de costas para eles, dentro de cada bolsinho da peça, devidamente nominados com etiquetas, para que sejam encontrados rapidamente ao final da aula. Ah! E quanto ao nome do porta-celular? Fiz até um concurso para escolhermos: “Estacionamento para celulares”, foi o nome que ganhou. O vencedor foi o Pedro Dornelas, ô garoto criativo! Como prêmio, para homenagear a minha disciplina, a Filosofia, o garoto recebeu um pôster do Aristóteles. 

— Ah sim, muito criativo, Padre Camilo, o senhor e seus alunos são realmente muito criativos. No entanto, as mães não gostaram nada da medida que o senhor tomou— contra argumentou a diretora.

— Que pena! Que lástima! Pois elas deveriam me agradecer por eu estar livrando os filhos delas desse demônio. Além do mais, elas já sabem o quanto as minhas aulas estão sendo bem aproveitadas? O quanto as “crianças” delas estão engajadas e participando ativamente das minhas aulas? Os filósofos que estudamos estão comemorando dentro de seus túmulos! Os meus alunos nem sentem falta dos benditos aparelhos! Estão PENSANDO, querida, PENSANDO! Consegue imaginar uma coisa extraordinária como essa? Estou forçado a acreditar que são elas que estão incomodadas, pois os anjinhos nem tocam no assunto “celular” comigo! Ah... e elas, por acaso, já sabem que haverá, uma Olimpíada de Filosofia? Pois saiba que a ideia foi dos próprios filhos delas... Milagres acontecem minha cara, acontecem!

Raquel balançou a cabeça sorrindo e disse:

— Ah, Padre, nós já sabíamos que esta nossa reunião não iria resultar em nada do que deveria, não é mesmo? Vamos fazer o seguinte: vou marcar uma reunião entre o senhor e os familiares dos alunos do Terceiro ano, a fim de que explique para eles todos esses pontos que argumentou comigo. Pode ser?

— Pode, minha filha, pode. Trate já de marcar, porém, com uma condição: que elas só poderão participar dessa reunião, se deixarem seus aparelhos no “Estacionamento para celulares”. Pode ser?

A diretora concordou, mas no dia seguinte, ela mandou avisar ao Padre Camilo que os familiares dos alunos desistiram da famigerada reunião. Nem é necessário explicar o motivo...

Ana Pamplona é membro do Coletivo Poesia de Rua