Florduarda (*)
Florduarda varria a calçada da casa de D. Doroteia distraidamente. Passava a vassoura-de-bruxa pelas folhas secas caídas dos galhos de um velho Oiti. Varria as folhas, varria os pensamentos.... Porém, as folhas rebeldes não obedeciam àquelas mãos hábeis. Tampouco os pensamentos. Os fortes ventos de agosto, o mês de cachorro doido e das revoadas não deixavam. Parecia que a quieta cidade chamada Formiga sairia voando a qualquer momento.
A menina moça amanhecera tristonha e alquebrada, tal como aquela manhã nublada. A noite tinha-lhe sido penosa. Não dormira um só momento. Ultimamente pensava insistentemente em mudar de vida. Cansara-se da vida de escrava. “Sim, escrava” — pensava — “era o que era, nada menos que isso”.
Florduarda era órfã. Sua mãe falecera no parto do irmão mais novo, Donaldo. Com a morte da esposa, seu pai, que já não era, como dizem, “bom da cabeça”, foi abatido por uma forte tristeza que o incapacitou para o trabalho e para a vida, vindo a falecer pouco tempo depois, de causa inexplicada. A família, cuja condição financeira era caótica, residia na zona rural e, desta forma, os seis filhos, todos pequenos, foram distribuídos para serem criados pelos parentes e amigos mais próximos.
Florduarda, por sorte ou por azar — não se sabe ao certo, pois o destino, esse desalmado, não explica muito bem porque as coisas acontecem — chegou na casa de sua madrinha Doroteia aos dois anos e lá estava até os dias de hoje. Dona Teínha (como era mais conhecida) era muito amiga e comadre de sua mãe, sendo que teve muito gosto em adotar a linda menina de olhos cor de jabuticaba e cabelos negros anelados. Dizia ela toda orgulhosa:
— Ganhei mais uma filha!
Mas não era. Aliás, a realidade estava muito longe disso.
Dona Teínha já tinha seus cinco filhos, dois meninos e três meninas quando Florduarda chegou. Ela equiparava em idade à mais nova, Maria de Lourdes, e, assim que a garotinha teve condições de iniciar na labuta da casa, a ela foi atribuída alta carga de serviços domésticos, enquanto as filhas de sua madrinha eram poupadas da lida. Florduarda até chegou a frequentar a escola, mas assim que aprendeu a ler e escrever o básico, sua madrinha retirou-a, pois, o tempo era escasso para a realização de todo o trabalho que ela precisava fazer. Desta forma, a “querida” afilhada ficava em casa limpando e lavando, enquanto as filhas da madrinha recebiam o benefício da formação escolar.
Por essas e outras, Florduarda encontrava-se em seu limite. Cansara de ser explorada. Havia sido tirada de sua casa e do convívio com seus irmãos para ser salva da miséria e para uma possível vida melhor, mas não foi isso que aconteceu. Transformara-se em escrava, literalmente, uma vez que realizava todo o serviço doméstico sem receber um salário e sem direito a férias ou qualquer outro benefício. Alguém há de dizer: mas você tem casa, comida e roupa. Todavia, o que dizer sobre o restante? Sobre afeto, instrução, oportunidades de crescimento e ser integrada como membro da família? Nada disso. Nem sequer tinha o direito de dormir com as meninas, pois, seu quarto minúsculo ficava ao lado da cozinha. Florduarda era apenas um ser à parte no grupo familiar, que prestava serviços escravos e sem possibilidades de crescimento. Raramente era-lhe permitido sair para passear. Viajar, nem pensar. Para onde? Com quem? Nem amigas havia conseguido angariar. Quando argumentava com a madrinha sobre sua situação, ela sempre dizia:
— Florduarda, se aquiete, menina! Você deveria colocar as mãos para o céu em oração e agradecer por tamanha oportunidade em morar conosco e ter sido salva por nós. Veja seus irmãos de sangue, não estão tão bem quanto você! Deixe de ser ingrata e vá terminar de passar as roupas!
Salva? Mas salva de que? Ela se perguntava o que poderia ter acontecido se não tivesse caído nas mãos de D. Doroteia. Não havia como saber. Novamente o tal destino desalmado, não explicando porque as coisas acontecem ou não acontecem. Por que seria?
De qualquer forma, depois de muito pensar, concluiu o que já havia concluído antes: que só haveria uma possibilidade de um futuro melhor para ela, através de um bom casamento. Coisa bem difícil de acontecer, uma vez que não tinha oportunidade de conhecer pessoas interessantes. O quase namoro com Desidério, aquele safado, dera errado. Tivera tanta expectativa com aquela relação e... nada. Somente decepções.
Florduarda interrompeu a limpeza frenética da calçada fria. Apoiando o queixo sobre as mãos na vassoura, e com um olhar perdido e estático, suspirou. Suspirou um suspiro dolorido e sem esperança. Suspirou um suspiro daqueles que deixam o futuro escorrer por entre os dedos e cair debaixo da vassoura implacável. Uma pequena lágrima escorreu pelo seu olho molhando sutilmente o chão. Ficou assim por um momento pensando na sua vida sem graça e sem futuro.
Nisso, começou um redemoinho. Uma briga de ventos que levantava sua saia e fazia a cabeleira negra revoar sobre os ombros magros. Florduarda se divertia com as cariciosas rajadas. Ela estava parada, e parada, permaneceu, aproveitando a viração lhe tocar a pele sensível.
Ela não soube dizer quanto tempo permaneceu naquele êxtase. Somente saiu do transe ao ouvir a freada de um carro à sua frente. E antes de abrir os olhos, ouviu uma voz pronunciando seu nome:
— Florduarda? (continua na próxima edição)
Ana Pamplona é membro do Coletivo Poesia de Rua
(*) conheça mais sobre Florduarda na edição de 25/03/2024 do Jornal O Pergaminho, ou na página 31 do livro da autora, PROESIAS.

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