FOGO CRUZADO
AC de Paula (de São Paulo)
A esquerda grita. A direita rosna. No meio, o bom senso pede silêncio — e ninguém escuta. Ambas juram amor à verdade, mas traem o dicionário todos os dias. Cada lado carrega a sua bíblia ideológica debaixo do braço e aponta o dedo para o herege alheio, sem perceber que o espelho também reflete. A esquerda diz lutar pela liberdade, mas amordaça quem pensa fora do panfleto.
A direita diz defender a ordem, mas flerta com o caos sempre que a ordem não lhe convém.
São irmãos brigados pelo mesmo quarto, quebrando a casa enquanto discutem quem é o dono do sofá. Para a esquerda, tudo é culpa do sistema. Para a direita, tudo é culpa do indivíduo. Curioso é que o sistema tem CPF e o indivíduo sempre mora longe das mansões do poder. Ambas amam o povo —desde que o povo concorde.
Se discorda, vira massa de manobra, gado, alienado, fascista, comunista, dependendo do pasto ideológico onde esteja ruminando. A esquerda romantiza a miséria como se pobreza fosse virtude estética.A direita normaliza a desigualdade como se fosse falha de caráter. Uma transforma a dor em slogan, a outra, em estatística. Ambas gritam “democracia!” mas só aceitam o resultado quando a urna confirma a própria fé. Quando não confirma, a culpa é do algoritmo, da fraude, do golpe, ou do “inimigo invisível” —esse personagem que nunca se elege, mas sempre governa, feito a tal figura parda.
Os extremos se odeiam em público,mas se copiam em segredo.Mesma intolerância, mesma arrogância moral, mesma incapacidade de ouvir. Mudam as cores, mantêm o tom. No fundo, não querem diálogo. Querem palco. Não querem soluções. Querem aplausos. Não querem justiça. Querem razão — ainda que torta.
E assim seguem, radicais, incoerentes, barulhentos, brigando pelo poder de decidir quem pode falar em nome do silêncio coletivo. Enquanto isso, o país anda de lado,feito caranguejo, e o povo trabalha dobrado,e a lucidez… essa ninguém representa. Porque entre a esquerda que promete o paraíso e a direita que promete o inferno do outro, o Brasil segue vivendo no purgatório da incoerência. E lá, curiosamente,os extremos não brigam. Se reconhecem.
No fim do tiroteio retórico, quando cessam os gritos, os posts, as hashtags e os palavrões travestidos de argumento, não são as narrativas que sangram. Elas se reescrevem, se reciclam, se reinventam para o próximo round. Quem cai é o povo. O cidadão comum não escolheu o campo de batalha, mas virou alvo móvel entre versões que disputam a verdade como quem disputa território.
Cada lado puxa a brasa para sua sardinha — e o povo fica com a fumaça nos olhos,os pulmões cheios de cinza e a conta do incêndio para pagar. Atordoado, o cidadão não distingue mais fato de fábula, nem mentira de convicção gritada. É empurrado para escolher lados quando só queria escolher caminhos, trabalho, dignidade, futuro.
Enquanto os extremos disputam a narrativa,o povo disputa o básico. Enquanto ideologias duelam em palanques e timelines, o cidadão enterra sonhos, adia planos e aprende a sobreviver no meio do fogo cruzado. No jogo de poder, a narrativa vence. Na vida real, o povo perde.
E assim seguimos: uma sociedade ferida, não por bala de chumbo, mas por palavras disparadas sem mira, onde quem grita mais alto se salva, e quem escuta demais sangra em silêncio. Porque no fim, quando a brasa muda de sardinha, a queimadura continua sendo no povo.

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