GRAVATAS EM CHAMAS
Há um silêncio estranho pairando no ar — desses que não anunciam paz, mas tempestade. Um burburinho de bastidores, de portas fechadas com chave dupla, de telefones que vibram mais do que tocam. Porque quando se cochicha demais, é sinal de que alguém já ensaia falar alto. E, quando alguém resolve falar… meu amigo, não é sussurro que sai — é avalanche.
Dizem por aí, com a cautela de quem atravessa campo minado, que vem delação. E não é qualquer uma, dessas que arranham superfície. É daquelas que, se o delator resolver botar fogo no parquinho, não sobra gravata limpa nem sobrenome ileso. Vai ter gente graúda procurando sombra onde sempre fez sol, autoridade suando frio em gabinete climatizado, e os satélites — ah, os satélites — esses que orbitam em torno do poder, também vão sentir o calor da fogueira.Porque o fogo, quando pega, não pergunta cargo nem currículo.
E como já ensinou a sabedoria das esquinas: vai ser um “um Deus me acuda ”, desses desesperados, lançados ao vento.pois Deus, com certeza, tem mais o que fazer do que acudir alquimistas de maracutaias, mestres em transformar sujeira em verniz e culpa em discurso bonito.
Enquanto isso, o espetáculo segue: a turma do lado A tentando empurrar a bomba para o colo da turma B, e a turma B devolvendo com juros e correção moral. Um jogo de empurra que não tem inocente, só versões. Cada um com seu cada um — e no fundo, todos com muito a esconder.
“Toma que o filho é teu.”
Vai ser sururu. Daqueles que não cabem em manchete, que transbordam.
Escândalo em cascata, nomes que até ontem eram intocáveis agora sendo pronunciados com vírgulas de dúvida. Ligações perigosas — e aqui o termo não é metáfora elegante, é quase literal — colocando autoridades em polvorosa, redes inteiras tremendo como fio desencapado em dia de chuva.
E no meio disso tudo, um silêncio mais pesado que os outros: um dos envolvidos que já não fala mais. Encontrado sem vida na cela, caso encerrado rápido demais para quem tinha perguntas demais, respostas demais . Teria sido ele o homem que sabia demais? Ou apenas o elo mais frágil de uma corrente que não admite falhas?
Ninguém responde. E o assunto, curiosamente, perde o fôlego antes de chegar à verdade.
Mas a engrenagem não para. Enquanto uns
correm para apagar incêndios e outros tentam calcular o tamanho do estrago, há sempre aqueles — discretos, obstinados — que já estão desenhando o próximo esquema, ajustando novas peças, criando futuros labirintos.
Porque, no subsolo das conveniências, a máquina nunca descansa. E sssim, entre delacoes que aneacan nascer, culpas que ninguém quer parir e verdades que custam a vir à luz, o roteiro segue sendo escrito.
Até que, um dia, outra bomba — talvez maior, talvez mais sofisticada — seja lançada. E, mais
uma vez, alguém vai dizer: “Eu não, eu nao sei de nada, eu não, eu nem estava lá.”
Como se o mundo acreditasse.!
AC de Paula é dramaturgo, poeta e compositor

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