I will survive!
Olhou desanimado para o saco de cimento jogado a seus pés. Limpou o suor da testa, debaixo do chapéu de palha. O calor de janeiro não perdoava, mas para Aírton Júnior, o brilho ardente do sol fazia as vezes de um bom refletor de palco.
Tomou um farto gole de água do seu galão e limpou a garganta com um certo exagero. Enquanto os outros serventes descansavam na sombra minguada de um tapume, ele permanecia no segundo andar da obra, concentrado. De olhos fechados, segurava a colher de pedreiro como se fosse um microfone, aguardando seu velho aparelho celular — que descansava sobre uma viga — começar a soltar os primeiros acordes do piano que precediam a entrada de Gloria Gaynor. A voz afinadíssima de sua musa, atacou o ambiente e no mesmo instante, ele a acompanhava naquele falsete irritante com uma interpretação melodramática:
— At first I was afraid/I was petrified! Kept’ thinkin’ I could never live/without you by my side/but then I spent so many nights/thinkin’ how you did me wrong...
— Aírton Júnioooooooor!!
O grito do chefe rasgou a bela tarde de sexta-feira estragando a performance do servente de pedreiro, tal como se interrompe o momento de um clímax. Espantou até um bando de maritacas que descansava por ali perto.
— Aírton Júnior!? Pare já com essas frescuras e traga a massa, agora!!... Já!! — continuou o mestre de obras aos berros.
Aírton Júnior pausou o som do celular, tirou os óculos de sol e coçou os olhos num sinal de impaciência.
Aquele seria o momento em que o humilde operário deixaria o palco ensolarado, desligaria o “microfone”, os “holofotes” e voltaria a manipular a massa com sua enxada, como em todos os dias.
Mas não foi. Ainda estava em seu horário de almoço. Não abandonaria sua musa, não cancelaria seu “gig” por uma tutameia de massa. Não. Ele simplesmente recomeçou o show, à capela, como se nada tivesse acontecido. Redobrou o volume de voz e foi até o final:
— Oh, now go, walk out the door/just turn around now/cause you’re not welcome/do you think I’d lay down and die/oh no not I/I will survive!and I’ll survive!I will survive!I will survive!!!!!
— Aírton Júniooooooooooor!! Traga a massa... jáááá!!!!! — gritou o chefe com grande impaciência na voz.
O servente suspirou contrariado. Seu último “I will survive!” saiu bastante esganiçado e o fez engasgar, fato que provocou muitas risadas nos colegas que estavam assistindo ao “espetáculo”.
“Bom, pelo menos consegui terminar meu show...” ele pensou aliviado, fazendo mesuras de agradecimento pelas palmas.
Despediu-se, então, de sua diva, Gloria Gaynor, e começou a descer a rampa empurrando o carrinho de mão. “Chefe babaca... ele não perde por esperar. Qualquer dia desses farei uma apresentação de pole dance aqui na obra...”
Aírton Júnior limpou o suor da testa com o antebraço, deu uma piscadela para o balde vazio e voltou ao trabalho.
Ana Pamplona é membro do Coletivo Poesia de Rua

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