LENÇOS OU MÍSSEIS!

LENÇOS OU MÍSSEIS!
AC de Paula é dramaturgo, poeta e compositor




Manual de montagem da hipocrisia, desmontaram drones russos e encontraram neles um pouco de cada país ”aliado”. Microchips franceses, conectores alemães, resistores americanos — uma verdadeira conferência da paz dentro da guerra. Zelenskyy pediu explicações. E as potências, com cara de vendedor de feira, juraram: “Isso aí não é nosso, deve ter caído da carreta.” 

Podem chamar de peça de montagem: desmontaram o céu com as mãos. Imagine a conversa: Zelenskyy, firme, apontando para uma placa de circuito como quem aponta para um documento de infidelidade, pedindo explicações aos ”aliados”. “Explique-me isso”, deve ter dito, não como quem pede desculpas, mas como quem pede mapas — porque descobrir a origem de uma peça é descobrir uma linha no mapa da responsabilidade. Não é só geografia: é moral técnica. 

Tal e qual um turista desorientado sob uma chuva de misseis, atônito e incrédulo ante as mazelas da guerra, perdido entre os estilhaços, que observa o resultado tragicômico deste mercado global, onde um circuito barato, fabricado em algum canto do mundo, atravessa um labirinto de fornecedores até encontrar o alvo. Não no sentido romântico — não foram mãos de anjo nem tesouras celestiais —, foram luvas sujas, dedos de mecânico, ferramentas de oficina e um gabinete de fragmentos que pareceu um bazar de eletrônica pós-apocalíptica.

Havia microchips com nomes que lembravam cidades europeias, plugues com sotaque americano, e peças tão pequenas que pareciam promessas encolhidas. A contagem virou cifra absurda: mais de cem mil componentes estrangeiros achados em drones e mísseis que sobrevoaram e explodiram o país. Ironia total, as mãos e mente dos que fabricaram esses artefatos sem saber que eles seguiriam o GPS da incoerência que contraria a razões, atingindo cidades, bases militares, edifícios públicos, combatentes, e pasmem, outros operários inocentes. 

O mundo fabrica peças com um fim nobre — até o dia em que elas voltam voando, explodindo telhados e certezas. É o capitalismo com GPS: vai e volta, mas sempre acha o caminho da tragédia. Agora todos prometem ”investigar a cadeia de suprimentos”, essa desculpa moderna para a velha omissão.

Enquanto isso, a Ucrânia cata parafusos entre os escombros e tenta montar, de novo, um país. No balcão das nações, o moralismo é importado e a culpa, terceirizada. E o riso — ah, o riso — é o último escudo contra o absurdo de um mundo que vende o fogo e depois chora pelo incêndio. E segue a humanidade, uns vertendo lágrimas, outros, vendendo lenços ou mísseis.