Ler para existir

Ler para existir
Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho (de Passos/MG)




Escrever bem e conhecer a língua portuguesa não é luxo, nem ornamento de biblioteca. É dever cívico e respeito ao outro, porque quem se expressa com clareza não apenas se faz entender — ajuda a dar forma ao mundo ao redor.

Falar, ler e escrever não são habilidades secundárias, dessas que se penduram na parede como diploma esquecido. São instrumentos vivos, ferramentas de convivência, modos de estar no mundo e, no fundo, formas de existir.

Porque existir, em sociedade, não é apenas ocupar espaço: é comunicar-se.

E, no entanto, basta caminhar pelos corredores de certas universidades para perceber que essa evidência já não é tão evidente assim. Há jovens — e não poucos — que ostentam, com uma estranha vaidade, o fato de não lerem: não leem por prazer, nem por obrigação, simplesmente porque, segundo dizem, não precisam.

Um estudante de engenharia, desses que raciocinam em cálculos exatos, disse-me certa vez, sem constrangimento, que nunca leu um livro inteiro. Não vê utilidade; literatura, para ele, é perda de tempo, e ideias que não se convertam em lucro imediato lhe parecem supérfluas. O mundo, na sua concepção, resume-se a produzir, faturar, avançar — um pensamento direto, mas perigosamente estreito.

Pergunto, então, com a serenidade de quem já viu o tempo fazer suas curvas: que espécie de sucesso é possível quando se desconhece o próprio idioma em que se vive? Como prosperar sem compreender as entrelinhas do mundo? De que vale erguer edifícios se não se entende o chão humano onde eles se assentam?

Há uma pobreza que não se mede em cifras e que se revela na dificuldade de interpretar um texto, de sustentar uma ideia, de perceber uma ironia ou reconhecer uma injustiça; passa quase despercebida, mas limita.

Essa aversão ao saber humanista, que hoje se disfarça de pragmatismo, revela algo mais profundo: um certo desprezo pelo que não se transforma rapidamente em vantagem, como se pensar fosse excesso e sentir, perda de tempo.

Mas não é o caso — é justamente o contrário.

A língua que falamos não é um conjunto de regras: é a casa onde vivemos juntos, onde organizamos o pensamento, formulamos dúvidas e expressamos dores e alegrias. Desprezá-la é, de certo modo, viver de favor dentro da própria vida.

Coelho Neto lembrava que desconhecer a língua pátria é falhar em um dever cívico — não por formalismo, mas por respeito à própria terra e à gente que nela vive.

Quem lê amplia o mundo, quem escreve se posiciona e quem domina a própria língua não se deixa conduzir com facilidade.

E aqui está o ponto mais sensível: quem não lê não apenas deixa de saber — deixa de questionar; e quem não questiona se torna presa fácil de palavras de encomenda, de verdades fabricadas, de compromissos que não aguentam o vento.

O estudante que despreza os livros talvez ainda não tenha percebido que o mundo não é feito apenas de respostas, mas, sobretudo, de perguntas — e perguntas exigem repertório, tempo e alguma intimidade com a dúvida.

Não há fórmula que substitua isso, nem cálculo que resolva.

Viver bem, ao contrário do que se imagina, não é apenas acumular ganhos, mas compreender a própria trajetória, reconhecer o outro e perceber que há algo de profundamente humano em parar alguns minutos para ler uma página — uma vida que não é a sua.

A cultura não se coloca à toa; é estrutura, é fundamento, é necessidade.

E o livro, objeto simples, continua sendo uma das formas mais acessíveis de ampliar horizontes: não exige senha, não cobra mensalidade, não impõe pressa — apenas espera e, ao esperar, ensina.

Há algo de revelador em quem lê, porque é gente que se amplia por dentro.

Um país que se afasta dos livros vai, aos poucos, desaprendendo a pensar e, quando o pensamento enfraquece, a dignidade vacila — não de forma brusca ou escandalosa, mas constante, como desgaste.

Quando o livro é esquecido, não é apenas a leitura que se perde; perde-se também a capacidade de imaginar um futuro diferente — e talvez seja isso que mais devesse nos inquietar.

Porque, no fim das contas, ler não é passatempo: é um modo de permanecer inteiro em um mundo que insiste em nos fragmentar.

É um modo de existir.

E quem descobre isso — cedo ou tarde — entende que não se trata apenas de saber mais.

Trata-se, sobretudo, de não se perder de si mesmo.

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista.