Livros que dão alegria
As Sagradas Escrituras são como uma mineração de diamantes: em meio à ganga sem valor encontram-se pedras preciosas, que são inesquecíveis. O calendário me fez voltar a um salmo que aprendi de cor quando era menino: “Nossos dias passam como um suspiro... Setenta anos é o tempo de nossa vida. E se alguns, por sua robustez, chegam aos oitenta, o melhor deles desses anos é canseira e enfado... Ensina-nos a contar os nossos dias para que venhamos a ter um coração sábio...” (Salmo 90.9-10 ).
Pois eu estou atentamente contando os meus dias. Não os que já se foram, mas aqueles que me restam, cujo número não sei. Em breve vou atingir o limite estabelecido pelo salmista: 70 anos! Nunca imaginei que esse dia iria chegar! O problema está no descompasso que existe entre a minha idade cronológica e a idade da minha alma – que está fora do tempo. Na alma, o tempo não passa. Sou ainda menino. Como Alberto Caeiro, “sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do Mundo”. Há tanta coisa por se fazer! Ravel, antevendo o momento da sua partida, dizia: “Mas há tantas músicas a serem escritas!” Que pena que Ravel morreu. Se não tivesse morrido, ele teria tido tempo para escrever as músicas que se ouviam na sua alma.
A idade me coloca diante do abismo. Sei que ele está próximo e sinto calafrios. O bruxo D. Juan dizia que é essa condição – comum a todos os homens mas só percebida pelos enfermos de morte e os velhos – que nos faz viver verdadeiramente a vida. “Há uma estranha, devoradora felicidade quando agimos com a total convicção de que, qualquer que seja a coisa que estamos fazendo, esta pode muito bem ser a nossa última batalha sobre a terra!” (Essa crônica que estou escrevendo: será ela minha última batalha?)
Aprendi, na emocionante leitura de Shogun, que os antigos guerreiros japoneses, os samurais, quando o dever os compelia ao suicídio ritual chamado sepuku – ou harakiri – antes do último ato, escreviam seu último hai-kai. Um hai-kai é um poema minúsculo, menor não pode haver.
Pequenos, mas de uma densidade absurda. Leminski os denominou de mínimos objetos poéticos de peso insuportável. De fato: um poema que se escreve antes de morrer tem de ter um peso insuportável, o peso de toda uma vida. Não tenho planos de cometer sepuku. Desejo viver muitos anos mais, a despeito dos desencantos da velhice. A verdade é que a velhice tem também os seus encantos. São encantos crepusculares, mansos, belos, tristes e efêmeros... Mas o belo efêmero, até as crianças se encantam com ele! Tanto assim que gostam de soprar bolhas de sabão. Também quero soprar bolhas de sabão, escrever o meu hai-kai porque o tempo foge cada vez mais rápido. É comum que mães me peçam para autografar livros de estórias para seus filhos. Pergunto sempre sobre a idade, porque dedicatórias para crianças de 5 anos são diferentes de dedicatórias para adolescentes de 12. E elas me respondem: “6 aninhos...” Eu as corrijo: “Na infância o tempo é comprido. Meses levam anos para passar. Assim, crianças não têm ‘aninhos’. Elas têm ‘anões’. Já na velhice os anos passam em semanas. Por isso quem tem ‘aninhos’ são os velhos...”
Meu hai-kai seria menor que um hai-kai. O que tenho a dizer se resume num único verso que o Chico compôs para sua filha: “Que seja da alegria sempre um aprendiz...” Descobri, na minha prática de terapeuta, que por detrás de todas as queixas daqueles que me procuravam em busca de alívio havia um único pedido: “Quero alegria!” Alegria é a oração universal de todos os seres. Há receitas para os prazeres. Mas não há receitas para a alegria. Assim, o que posso fazer é simplesmente falar aos meus amigos sobre coisas que me dão alegria na esperança de que, se dão alegria para mim, pode ser que dêem alegria para eles.
Começo com os livros. Livros há muitos. Mas são poucos os que dão alegria. Desconfie dos devoradores de livros. Livros em excesso não fazem bem, da mesma forma como comida em excesso não faz bem. Schopenhauer disse conhecer muitos eruditos que leram até ficar estúpidos, acrescentando que nove décimos de toda literatura do seu tempo não tinham outra finalidade a não ser a de tirar alguns centavos do bolso do público. “É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante porque a vida é curta e o tempo e a energia escassos”. Seguindo o conselho de Schopenhauer, faz alguns anos dei mais da metade da minha biblioteca. Percebi que não teria tempo de ler todos aqueles livros e que eram poucos os que me davam alegria. Fernando Pessoa e Nietzsche também encontravam sua alegria em poucos livros. Livros que dão prazer se parecem com anedotas. Uma anedota só tem graça na primeira vez que se ouve. Também os livros que dão prazer só dão prazer na primeira leitura. Lidos, podemos dá-los de presente. Mas a marca dos livros que dão alegria é que se parecem com poemas: voltamos sempre a eles, para lê-los de novo. Livros que dão prazer raspam a pele. Livros que dão alegria entram no sangue.
Como sou escritor, o que desejo é que os livros que escrevi dêem alegria. Quero que sejam lidos e degustados. Mas tenho de falar sobre outros livros que me fazem sorrir só de pensar neles. Livros de leitura fácil que dariam alegria a qualquer leitor. Cito, em primeiro lugar, Zorba, o Grego, de Nikos Kazantsakis. Acho que gostaria de viver e morrer como Zorba. “Um homem como eu deveria viver mil anos!” Essas foram suas últimas palavras.
De João Guimarães Rosa, Miguilim, um menininho que tinha olhos de crepúsculo: “O tempo não cabia. Toda manhã já era tarde. Todo dia tomava um golinho de velhice”. Me vi Miguilim. Grande Sertão-Veredas, a Bíblia de João, como a Adélia o chama. Lá não tem antes nem depois. Qualquer página é inspirada. Fala o Riobaldo... De Albert Camus, Primeiros cadernos, pensamentos no momento do seu nascimento: “Deus precisa de almas agarradas ao mundo. O que lhe agrada é a nossa alegria”. História sem Fim, de Michael Ende, estória da viagem do menino Bastian Baltazar Bux no Reino da Fantasia, viagem assombrosa pelo inconsciente sem que se use uma única palavra da psicanálise. Também do mesmo autor o livrinho O Teatro de Sombras de Ofélia. Quando terminei de ler Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez, eu disse para mim mesmo, em meio ao riso e às lágrimas: “Se eu fosse Deus todo poderoso, nesse momento eu proclamaria: A obra da Criação está por fim terminada...” De Hermann Hesse, Sidarta, especialmente o diálogo com Vaseduva, o barqueiro: “O rio me ensinou a escutar”, Vaseduva disse a Sidarta. ‘O rio sabe todas as coisas. Dele pode-se aprender todas as coisas. As vozes de todas as criaturas vivas podem ser ouvidas na sua voz’.
E assim eles se assentavam juntos, no tronco de árvores, ao cair da noite. Ouviam a água em silêncio, água que para eles não era só água, mas a voz da vida, a voz do Ser, da Transformação eterna...” A Poética do Espaço e A Poética do Devaneio, de Bachelard: “Ergo suavemente um galho; o pássaro está ali chocando os ovos. Não levanta vôo. Somente estremece um pouco. Tremo por fazê-lo tremer. Tenho medo de que o pássaro que choca saiba que sou um homem, o ser que deixou de ter a confiança dos pássaros. Fico imóvel. Lentamente se acalmam o medo do pássaro e o meu medo de causar medo. Deixo o galho voltar ao seu lugar. Voltarei amanhã.
Hoje trago comigo uma alegria: os pássaros fizeram um ninho no meu jardim...”. De Jorge Amado, Quincas Berro-D’água, uma das estórias mais deliciosas que já li. De Bernardo Soares, o Livro do Desassossego, viagem pela subjetividade do autor, em minúcias e detalhes assombrosos. Se a arte, como ele diz, é comunicar aos outros nossa identidade íntima com eles mesmos, quem lê esse livro anda por dentro de si mesmo. De Saramago, Memorial do Convento, que é a história inventada da construção do convento de Mafra, em Portugal.
Mas o que mais me comoveu não foi a construção do convento. Foi a subestória do Padre Voador, Bartolomeu de Gusmão, que queria construir uma passarola voadora e descobriu, com os alquimistas holandeses, que a única coisa que tinha poder para fazer o pesado voar era a vontade dos homens. Aí entra a Blimunda, vidente, que saiu pelos campos de batalha a engarrafar a vontade que saía pelas ventas dos moribundos, vontades essas que, engarrafadas e ajuntadas, fizeram voar a passarola... E, também de Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo: qualquer jeito de amar vale a pena! O Filho de Deus sabe disto! E de Nietzsche, Ecce Homo, onde se encontram as chaves para o labirinto da sua alma. Esses livros são meus companheiros de solidão. Quem os ler com alegria estará na minha confraria...

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