Mais endividados, porém menos inadimplentes: o retrato do crédito no início de 2026

Mais endividados, porém menos inadimplentes: o retrato do crédito no início de 2026
Cida Leal é jornalista e escreve sobre economia às terças-feiras




O brasileiro começou 2026 recorrendo mais ao crédito, mas com ligeira redução no atraso dos pagamentos. Dados divulgados pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) e repercutidos pela Agência Brasil mostram que o percentual de famílias endividadas atingiu 79,5% em janeiro, igualando o maior nível já registrado. Ao mesmo tempo, a inadimplência recuou pelo terceiro mês consecutivo.

O aparente paradoxo revela uma mudança importante no comportamento financeiro das famílias. O avanço do endividamento não decorre necessariamente de descontrole, mas do uso crescente do crédito como complemento da renda para sustentar o consumo corrente. O cartão de crédito permanece como principal porta de entrada, presente em mais de oito em cada dez dívidas.

O peso do crédito, porém, não é homogêneo. Entre famílias com renda de até três salários mínimos, o endividamento supera 80%, enquanto nos lares com renda superior a dez salários mínimos fica abaixo de 70%. A diferença indica que, para a parcela mais pobre, o crédito funciona menos como opção financeira e mais como necessidade de curto prazo.

Ainda assim, os sinais mais relevantes estão na capacidade imediata de pagamento. A proporção de famílias com contas atrasadas caiu para 29,3%, e o tempo médio de atraso ficou em cerca de dois meses. O dado sugere um equilíbrio frágil: parte dos consumidores consegue administrar os compromissos, mas comprometendo parcela elevada da renda.

O contexto monetário ajuda a explicar esse comportamento. Com a taxa Selic em 15% ao ano, o crédito permanece caro e limita novas operações, ao mesmo tempo em que dificulta a quitação mais rápida das dívidas existentes. A expectativa de queda gradual dos juros ao longo do ano tende a aliviar esse quadro, o que sustenta a projeção de nova redução da inadimplência nos próximos meses.

O quadro, portanto, não é de alívio financeiro, mas de adaptação. O país convive com um consumidor altamente dependente do crédito, que mantém pagamentos em dia à custa de um orçamento cada vez mais pressionado. Pequenas variações de inflação, emprego ou juros podem alterar rapidamente esse equilíbrio.

Em síntese, o início de 2026 confirma um traço marcante da economia brasileira recente: o consumo continua sustentado pelo crédito, enquanto o ganho real de renda ainda não acompanha a mesma velocidade.