Malabarismo Invisível
Outro dia, ao parar no sinal vermelho do semáforo, havia uma mulher tentando fazer malabarismo com cinco bolinhas. A cena pareceu-me familiar, imediatamente fiz a conexão com os papeis que exercemos em sociedade. Talvez, pelo fato de que, ser mulher é, antes de tudo, ser malabarista. Com cinco ou mais bolinhas, raramente com menos.
O espetáculo começa sem aviso, às vezes sem preparação, antes mesmo de entrarmos na vida adulta. A mulher moderna entra no picadeiro da própria vida, nem sempre com a roupa de show, mas com o uniforme invisível da prontidão. Nas mãos, ela vai equilibrando as cinco bolinhas que o mundo jurou serem leves, mas que começam a pesar conforme o tempo avança.
A bolinha da carreira profissional é de vidro, exige polimento constante e, se cair, o estilhaço é barulhento. Ela exige foco absoluto, enquanto as outras quatro zumbem ao redor da orelha como mosquitos insistentes.
A bolinha da família é de borracha e se cair, ela quica, mas dói no coração. Vem carregada de culpa: é o estoque da despensa, o dever de casa, o médico dos pais, a educação e a saúde dos filhos, a relação com o marido, o cocô do cachorro... Cobranças por todo lado. É a bola que mais pesa porque não é feita só de tarefas, mas de expectativas alheias. A situação piora quando o papel da protagonista é a de mãe-solo. Essa bolinha parece agigantar-se, as mãos parecem tão inábeis, tão insuficientes...
A terceira bolinha é feita de algodão: o autocuidado. Essa é a primeira que ela costuma deixar cair. Afinal, é macia, não faz barulho ao tocar o chão e ninguém nota que sumiu — exceto o espelho e o cansaço que se acumula na base da nuca e nos ombros.
A quarta é de ferro: as finanças e a logística. É o cálculo mental do que entra e do que sai, a conta que não fecha, o malabarismo matemático de transformar o pouco em suficiente para todos, menos para si mesma.
E a quinta bolinha, a mais misteriosa, é feita de luz: a identidade. É quem ela é, quando não está sendo filha, mãe, profissional ou esposa. É o desejo que ficou guardado na gaveta, o livro que parou na página dez, o silêncio que ela nunca consegue alcançar, o espaço que ela não parece ter conquistado para a solitude.
Dizem que a mulher é uma criatura multitarefa por natureza, mas a verdade é que a natureza não nos deu braços extras. O malabarismo da mulher moderna é um fenômeno da Física: ela consegue manter as cinco bolinhas no ar enquanto caminha, fala ao telefone e prepara o jantar. O público — a sociedade, os filhos, o companheiro — assiste com uma naturalidade desconcertante. Ninguém aplaude o fato das bolas não caírem; o mundo ao redor parece ignorar que a gravidade existe, apenas estranha quando o movimento perde o ritmo. Um espetáculo sem aplausos, realizado no silêncio da mente. E o desafio não é apenas fazer tudo, mas fazer tudo com a coreografia correta, tudo perfeito. Existe um manual desconhecido, não escrito, que dita o tom da voz: firme, mas não “agressiva”, empática, mas não “emocional”, vaidosa, mas não “fútil”... Caminhamos sobre um fio de navalha esticado entre o ser “demais” e o ser “de menos”. Se você foca na carreira, falta em casa. Se foca em casa, estaciona na carreira. O mundo adora nos cobrar escolhas que nunca são exigidas dos homens com o mesmo peso de culpa.
Esses dias terminei a leitura da obra “Caderno Proibido”, da escritora italiana, Alba de Céspedes. No romance, a personagem principal, Valéria Cossati, é uma dona de casa, de classe média baixa, no período pós-guerra, na casa dos quarenta anos, que, obrigada a trabalhar fora para reforçar o orçamento doméstico, passou a dividir seu tempo entre as tarefas da casa, os cuidados com a família e o trabalho remunerado. A partir de um exercício de autodescobrimento através da escrita em um diário secreto, ela vai se dando conta dos caminhos que a levaram ao momento em que está — a mulher que cuida de todos e que ninguém cuida dela, a mulher que é cobrada em suas obrigações, mas que não pode exercer um papel de autonomia e identidade; e que, começa a se sentir despojada de sua própria interioridade e seus desejos, simplesmente seguindo o que era considerado natural para as mulheres de sua geração. Pois caíram muitas das bolinhas que Valéria estava equilibrando em suas mãos e isso a incomodou, ao ponto de querer destruir o caderno que julgava ser a causa de todo esse desequilíbrio interior. Felizmente, hoje sabemos que Valéria estava enganada: a culpa não era do caderno.
Afinal, o sinal ficou verde. Algumas bolinhas caíram das mãos da artista de rua. Ela as recolhe do chão, ajeita os cabelos vermelhos e sorri constrangida. Mesmo assim, espera a gorjeta dos motoristas. Ela já aprendeu que está tudo bem.
Ana Pamplona é membro do Coletivo Poesia de Rua

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