Meia sola

Meia sola
Robledo Carlos (de Divinópolis)




Nos teus olhos, meus sapatos,

transeuntes, couro velho,

ressecados e sem vida,

sem a graxa, não me espelho.

De carinho e boa escova,

do descaso que assemelho.

Dê um grito, anuncie...

se te vejo junto à caixa,

e tuas mãos que aprecio,

tem flanela e a graxa,

um jornal de ainda ontem

e um samba que você puxa.

Eu já fui a casamento,

onde tinha só botina,

já pisei em muita lama,

ja voei e fui à China,

já pisei no Vaticano,

hoje estou com sola fina.

Meia sola ainda dou

mas preciso de cuidados,

ele sabe onde pisa,

mas do tempo eu usados,

vem a pressa e desliza,

para o chão logo puxados.

Mas os pés que me encaixo,

dizem muito quem eu sou,

é que lhes dei bom conforto,

do inverno que passou,

de tempestades e chuvas,

dos momentos que amou.

Robledo Carlos é membro da Academia Formiguense de Letras