Meias trocadas

Meias trocadas
Ana Pamplona (de Formiga)




O sol da manhã entrava pela janela da recepção do consultório de Toletinho(*). Lucas, de 12 anos, balançava levemente as pernas na poltrona de espera, enquanto brincava de produzir reflexos divertidos na parede com seu relógio de pulso. Alessandra, sua mãe, gostou disso, pois ajudava a diminuir a ansiedade do filho, que era portador de Síndrome de Down. Ir ao dentista não era exatamente algo que Lucas gostasse, pelo contrário, era um evento de muita tensão. Mas ele gostava do doutor e do chifre de boi pregado em cima da porta de entrada. E esse fato ajudava bastante no desenrolar das sessões.

De repente, a porta do consultório abriu e apareceu uma moça bonita, Lucília, com um sorriso acolhedor, dizendo:

— Lucas? Pode entrar, Dr. Toletinho está te esperando.

Lucas levantou-se, ajeitou a camiseta do Batman e olhou para a mãe. Ela lhe deu um joinha, encorajando-o. Ele teve um momento de dúvida, olhou para o chifre de boi, olhou para Lucília, tornou a olhar para a mãe, que lhe fez um aceno positivo de cabeça. Depois de alguns minutos de apreensão, Lucas seguiu para a sala de atendimento, fazendo “tchau” para a mãe, que, intimamente, comemorou essa vitória — um grande avanço no comportamento do filho. Entrar sozinho na sala de atendimento era digno de comemoração.

— Ora, ora, vejamos quem é que está aqui?! Lucas, o Batman?? Quanta honra! Bom dia, Lucas e seja bem-vindo! — disse o dentista de forma alegre e natural, estendendo sua mão para cumprimentar o paciente.

Lucas pegou na mão do dentista a contragosto, mas já foi logo sentando na cadeira odontológica. 

— E aí, parceiro? — disse o dentista, sem máscara ainda, para que Lucas pudesse ler sua expressão. — O Batman veio reforçar a segurança hoje?

Lucas sorriu daquele jeito gostoso, típico dele e da sua síndrome. Apontou para o símbolo no peito: — O Coringa não entra aqui não, né, Dr. “Todetino”?

— De jeito nenhum. Aqui só entra herói. E que bom que você já subiu no nosso “foguete”.

Atender crianças e pacientes especiais não era a especialidade, nem a preferência de Toletinho, no entanto, desde que fizera um atendimento de urgência para Lucas há um tempo atrás, tomou gosto por essa área. Na verdade, houve uma grande sintonia entre os dois. Eles se deram muito bem. Toletinho aprendeu que, para Lucas, o mundo às vezes precisava de um tempo e uma dinâmica diferentes para ser processado. Quando a sessão era para ele, não havia pressa; era mais uma aventura. E se não conseguisse fazer o atendimento, estava tudo bem. Ao mesmo tempo, Lucas gostava do jeito alegre e despojado do doutor.

— Vamos subir esse foguete no espaço, meu amigo? — Toletinho pediu ao paciente que apertasse o braço da cadeira com o dedo indicador, enquanto ele acionava o pedal para a cadeira subir. 

— Agora, sopre com força para acender a luzinha... (enquanto isso ele acendeu o refletor com o pé) ...

Toletinho começou o protocolo que sempre funcionava: falar-mostrar-fazer. Ele não pegava os instrumentos de surpresa, mesmo numa sessão de limpeza dentária. Ia explicando o que iria fazer de forma divertida, mostrando cada etapa e só então usava o que fosse necessário. 

Muita conversa fiada, muitas risadas, e o atendimento seguia tranquilamente, até que, a certa altura, Lucas empacou. Ficou resistente ao motor de baixa rotação. Ele detestava aquele barulho, aquela vibração. Estava de olhos e boca fechados. Balançava a cabeça negativamente. Recusava-se. Sempre acontecia nessa parte. A Síndrome de Down frequentemente traz uma sensibilidade sensorial aguçada. Tudo normal. 

— Está indo muito bem, Lucas! — Mas falta o polimento com o “treme-treme” para esse sorriso brilhar mais que o Bat-sinal! — incentivou o doutor apontando para o teto — Não vai querer sair daqui com os dentes manchados como os do Pinguim, não é mesmo?? E certamente vai querer ganhar um par de meias para trocar comigo depois de terminarmos...

Lucas abriu os olhos. Lucília mostrou-lhe as meias que o doutor calçava: no pé esquerdo, meia vermelha com figuras do Homem-aranha; no pé direito, meia amarela com figuras do Batman. Toletinho perguntou-lhe:

— E aí, parceiro? Vai querer o sorriso brilhando e o outro par de meias trocadas ou não?

Sim, ele quis. Aguentou firme o barulhinho irritante do “treme-treme” e o gosto azedo do fluoreto. E ao terminar, o espelho foi entregue a Lucas. Ele analisou cada dente, abriu um sorriso largo e constatou: — “Bilhando”, “bilhando” muito.

— Exatamente — disse Toletinho. — Missão cumprida, herói! Vamos calçar as meias trocadas?...

Nota: O dia 21 de março é reconhecido internacionalmente como o Dia Mundial da Síndrome de Down, dedicado à conscientização sobre essa condição e o combate ao preconceito que ainda é enfrentado por muitas pessoas que nasceram com a síndrome. A campanha “Meias trocadas” simboliza uma forma de celebrar as diferenças e chamar a atenção de quem passa por perto, para que surja um questionamento, uma dúvida, um diálogo, uma forma de abrir uma conversa sobre a síndrome de Down, no dia dedicado a conscientizar sobre ela.

Ana Pamplona é membro do Coletivo Poesia de Rua

(*) Conheça o personagem Toletinho no livro da autora, PROESIAS, ou nas edições anteriores de O Pergaminho.