Missão possível
Quando eu era mais bobo (se é que seja possível), costumava deixar me levar apenas pelas emoções, deixando de lado a lógica. Continuo bobo, mas com mais critério. Por um lado é bom ser assim, já que os sentimentos explodem de seu modo mais passional, mas ruim porque fazemos coisas que não devíamos. No amor, nem se fala, não é? Na década de 80 fiz um curso de paisagismo de 40h lá na UFLA, em Lavras. Diversos cursos na área de ciências agrárias eram oferecidos em uma semana chamada SECAL- Semana de Ciências Agrárias de Lavras. No último dia deste curso, viajamos para São João Del Rey e Tiradentes para as chamadas visitas técnicas. Ora, como professor, sei que não se pode dizer nunca no meio acadêmico que é um passeio; é visita técnica, mesmo que seja passeio. Como todo estudante normal, andava duro para quase qualquer coisa além da minha sobrevivência, logo, artigos em lojas eram apenas para serem vistos. Em uma loja de artesanato, vi uma bela peça de ametista (quartzo roxo), com a qual me apaixonei. Não possuía nem de longe o valor que ela custava e o que pude fazer foi ficar ali, babando. Apreciei outras coisas à venda, inclusive armas de pederneira, coisa que adoro. Colegas abonados compraram suas quinquilharias. Retornamos à noite e a ametista não me saía da cabeça. Comentei incessantemente sobre ela com meus amigos. Ora, peças assim são extremamente comuns em lojas de cidades turísticas, ainda que todas elas procedam de cidades do Rio Grande do Sul. Pouco depois desta “visita técnica”, passei a amealhar consideráveis quantias com a venda de minerais e pedras lapidadas para estudantes e apreciadores lá na UFLA e da cidade, e, resoluto, marquei dia de viagem a Tiradentes para adquirir a peça. A distância entre Lavras e Tiradentes não é grande, mas tive que pegar dois ônibus que paravam em todos os lugares possíveis para pegar passageiros e isto aumentou consideravelmente o tempo da viagem. A bordo destes “cata- Jecas”, o tempo parecia não passar nunca.
Ao chegar lá, corri de imediato para a loja e, para minha alegria, a peça ainda estava lá. Como a inflação era muito alta naqueles tempos e havia se passado cerca de três meses, pensei que o preço dela estava nas alturas, mas felizmente não foi reajustado e paguei alegremente. O vendedor fez uma embalagem muito segura, a qual foi colocada em minha mochila. Dali eu fui para a pracinha central (lá só tem centro), onde esperei aliviado o ônibus para São João Del Rey.
Cheguei em Lavras ao anoitecer, já louco para abrir o embrulho e contemplar minha peça. Durante muito tempo aquela ametista foi o meu tesouro e a peça mais bonita da minha coleção de minerais. Minha coleção ficava no armário embutido do meu quarto aqui em Formiga, o qual possui prateleiras com iluminação individual e duas portas de vidro. Quando levava alguém especial para conhecer meu acervo, acendia as luzes do armário e aquela peça cintilava como uma estrela de primeira grandeza.
Muito tempo se passou e com ele veio o conhecimento, os contatos e facilidades. Esta peça perdeu grande parte do seu fascínio porque tive acesso à diversas outras, muitas gratuitamente. Um empresário me comprou um lote de “pedras brutas” ornamentais para decorar suas vitrines e, para compor o lote, dispus da tal peça. Dela me restou apenas a história que conto aqui, a qual relembro com saudade. Em meu entusiasmo juvenil fui capturado pelo fascínio por algo que, convenhamos, não valia o esforço da viagem, mas se encantar com pouco ou quase nada é uma das dádivas da juventude. O que tornou esse caso interessante foi o lado da busca em si, o plano para economizar e poder adquirir algo que, de princípio, era inviável.
Estes eventos serviram também para me civilizar um pouco no tocante ao gosto musical alheio, já que, na viagem da visita técnica, uma colega de curso levou violão. Eu tocava os pop-rock-blues da vida e um colega argentino tocava músicas populares latinas. Depois de uma breve desinteligência por causa disso, ficamos muito amigos e voltei desta viagem mais amadurecido e cantando alegremente “Guantanamera”.
Anísio Cláudio Rios Fonseca é professor do Unifor-MG, coordenador do Laboratório
de Mineralogia do Unifor, membro da Academia Formiguense de Letras e especialista em Solos e Meio-Ambiente

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