NARRATIVA: SER OU NÃO SER

NARRATIVA: SER OU NÃO SER
AC de Paula é dramaturgo, poeta e compositor




Ser ou não ser: eis a questão, dizia o moço de fala bonita, capa preta, tragédia no olhar e um certo ar de quem nunca pegou fila no SUS. Por aqui, no Brasil profundo das calçadas rachadas e dos ônibus lotados, a pergunta muda um tiquinho: Ser ou não ser… acreditado?  Porque viver, até que todo mundo vive. Difícil é ser levado a sério. A moça do telejornal garante que a economia vai bem.

O açougue do Zé continua vendendo picanha em suaves prestações de 12 vezes sem juros — e sem carne. Cada um com sua narrativa. No fim, é como escolher entre ser feliz ou ler os comentários nas redes sociais: — Não dá pra ser os dois ao mesmo tempo. O lado bom de existir em múltiplos universos — essa moda nova de física quântica aplicada à fofoca — é que sempre tem um “eu” vivendo melhor em algum canto. No Universo A, sou milionário e escrevo crônicas olhando o mar. No Universo B, virei coach motivacional e ensino as pessoas a repetirem mantras como quem tenta convencer a geladeira a não apitar. No Universo C, eu simplesmente não existo, e olha… às vezes parece o mais tranquilo.

Enquanto isso, aqui no Universo Oficial, a vida segue batendo ponto. O ônibus não passa, mas passa o tempo. O salário não aumenta, mas aumentam as taxas. A esperança não morre, mas vive meio gripada. E, se você reparar bem, todo mundo está disputando a mesma coisa: o direito de narrar o mundo à sua imagem e semelhança. No jornal, a culpa é do governo. No governo, a culpa é do jornal. No grupo da família, a culpa é — obviamente — sua, mesmo que você não tenha dito nada. Ser ou não ser… culpado.

Outro dia li que cientistas descobriram sinais de vida em outro planeta. Tomara que não contem a eles sobre a nossa. Vai que desanimem. Porque, cá pra nós, viver neste planeta exige talento para equilibrar paradoxos: — A internet promete conectar as pessoas, mas só serve pra separar as famílias. — A política diz que resolve problemas, mas só fabrica novos modelos, agora com bordas arredondadas e “modo escuro”. — A felicidade virou meta, KPI, OKR; dá até pra exportar se colocar numa embalagem bonita.

No fim das contas, a grande pergunta shakespeariana se encolhe e vira outra, mais pé no chão e mais brasileira:  “Ser ou não ser… eu mesmo?” Porque a vida vive tentando nos transformar em alguma outra coisa: em padrão, em estatística, em dado demográfico, em opinião que alguém espera ouvir. Mas ser quem se é — com defeitos, tropeços, ironias e um humor que resiste ao noticiário — isso sim é ato de coragem. E enquanto os universos se multiplicam, as notícias se contradizem e as narrativas se duelam como gladiadores cansados, fico com a minha, humilde, torta, meio debochada: Ser é insistir. Não ser é desistir. E eu, que não sou besta, continuo sendo. Mesmo que não queiram acreditar.