No tempo das enchentes

No tempo das enchentes
Ana Pamplona (de Formiga)




Antigamente, na bucólica cidade de Formiga aconteciam enchentes. Esta história de hoje é sobre uma delas, a memorável enchente de 1.977. Quem está vivo e presenciou o fato, deve se lembrar. Quem está morto também se lembrará. E esta também é a história de uma Menina, digo, Menina-moça, ou Mocinha, hoje já idosa, que vivenciou aquela tragédia e que não tem tanta certeza da data... mas aconteceu.

A família morava em uma casa que ficava próxima a uma das pontes sobre o querido Rio Formiga. Era um dia qualquer de janeiro. Não, qualquer, não: era o “dia daquela enchente” que marcou nosso baú de memórias.

Pois bem, naquele dia, logo pela manhã bem cedo, a Mãe já se encontrava muito agitada, fora do normal.

— Gente, vamos acordar! Todo mundo se levante! Rápido! Ouvi dizer que está chovendo muito forte na cabeceira do rio e que hoje haverá enchente, é certeza! — gritava ela, batendo nas portas dos quartos dos filhos.

Ninguém entendeu porque deveriam todos levantar mais cedo (com a chuva tamborilando na vidraça da janela, com a cama mais macia do que o normal e em plenas férias de janeiro...), já que não havia o que fazer para impedir uma enchente. Mas levantaram, não tinha como não obedecer aquela ordem tão incisiva. A Mãe explicou que todos teriam que ajudar a arrastar os móveis para o fundo da casa, para o caso de a água subir e entrar na sala. Coisa que o Pai contestou, argumentando que a casa fora construída num nível muito acima do normal da rua, justamente visando prever este acontecimento, que era comum na cidade das areias brancas. Mesmo assim, os móveis foram arrastados, “só por uma precaução emergencial”. Móveis devidamente reposicionados, vida que segue.

Seguiu, mas não da forma usual, pois a chuva virou tempestade e o rio virou mar bravo. Transbordou, transcendeu à pobre ponte, invadiu as ruas, os terrenos, os carros e as casas, chegando, claro, conforme previra a Mãe, à rua da família e à casa da Mocinha. As águas do Rio Formiga, violentas, majestosas, insidiosas, penetraram as residências sem cerimônia alguma e levaram móveis, objetos, animais de estimação etc. No entanto, não entraram naquela construção tão preparada para emergências pluviais, conforme previra o Pai, exceto na garagem, atingindo as rodas do seu amado Opala amarelo. Lembrando que o carro só estava lá, pelo fato do Pai não ter tido tempo de sair para tentar salvar os calçados da sua loja, que ficava em uma rua, também atingida pela tragédia. 

Impossível descrever o desespero da Mãe.  O medo pela possibilidade da água subir mais e mais, aliado ao sentimento de solidariedade às outras famílias atingidas chegava a um nível crítico. Muitos cigarros foram consumidos pelos adultos e muito chão foi gasto com passadas preocupadas para lá e para cá. O Pai tentava, inutilmente, ler o jornal do dia anterior, enquanto a Mãe fazia mais café. A energia elétrica já se fora há muito tempo, fenômeno corriqueiro na cidade, sempre que chovia. Havia até uma piada na praça, dizendo que o prefeito iria proibir os cães de urinarem nos postes, a fim de evitar aquelas ocorrências fora do tempo das chuvas. Imagine durante dias de tempestades como aqueles.

É claro que a tensão, o medo, e a apreensão atingiram a todos da casa. Todavia, os jovens, muito jovens — hoje bem definidos como pré-adolescentes — sabiam como contornar essas ocorrências sem a internet, sem celulares, sem vídeo games, apenas com os próprios recursos acumulados ao longo de doze anos, no caso da Menina, e, um ano a mais, no caso do Irmão e de um Amigo dele, que visitava a família. Pois, na hipótese de que não havia nada o que fazer, sentaram-se no peitoril das janelas da sala de visitas para “assistir a enchente”. Ah, os benditos tempos da inocência e da irreverência que jamais voltam! Enquanto uns, iam narrando em voz alta aqueles acontecimentos e seus desdobramentos, como se narra um jogo de futebol, a outra anotava num papel os objetos que passavam pela rua, sem resistência alguma, levados pela forte enxurrada. “Atenção... um fogão de duas bocas é ultrapassado por um banco alto... uma lanterna desgovernada dribla a água... uma imagem de santo acaba de mergulhar neste momento... uma bola de capotão passa rapidamente e bate na trave... digo, no poste!! Nenhum GOL, até agora, senhoras e senhores!...” e por aí foi. Era muita emoção naquele jogo...

A certa altura, a chuva cedeu um pouco e a Mocinha viu passar arrastada, uma delicada cadeirinha de madeira escura, dessas feitas para crianças. A pobre cadeira seguia flutuando na água barrenta, revirando as pernas para cima, para baixo e para os lados. Entretanto, a Mocinha teve a impressão, de que ela parecia não sofrer ao sabor da violência da correnteza, ao contrário, parecia até se divertir com aquilo. Por incrível que pareça, a cena lhe deu um certo alívio. Vai saber porque...

Assim foi, pela graça de Deus, o desfile dos inanimados, ao que parece, sem vítimas humanas, até as águas se acalmarem e a vida voltar ao normal... até a próxima enchente.

Ana Pamplona é membro do Coletivo Poesia de Rua