Novamente ela- a rainha jabuticabeira

Novamente ela- a rainha jabuticabeira
Anísio Cláudio Rios Fonseca (de Formiga/MG)




Acredito que nenhuma árvore frutífera desperte tantas lembranças agradáveis como as jabuticabeiras. Talvez haja um empate técnico entre as jabuticabeiras e as mangueiras, mas minha preferência recai sobre as primeiras. Esta árvore sempre foi meu xodó e me dá muito prazer palmilhar pomares urbanos e rurais onde haja várias delas. Seu crescimento lento parece proposital, para provocar o desejo de poder se deliciar com seus frutos. Todos os grandes quintais da nossa cidade ostentam essas frutíferas, mas com a crescente demolição de casas antigas para construções diversas, essas árvores têm sido sistematicamente exterminadas, o que é um desastre irreparável. Algumas delas são centenárias, já bem retorcidas e cheias de calosidades em seus troncos, devido às múltiplas frutificações em sua vida produtiva. Elas pertencem à família Myrtaceae, a qual pertencem também as goiabeiras, araçazeiros, eucaliptos, gabirobeiras, uvaieiras, cambucazeiros, dentre várias outras. A jabuticabeira frutifica no tronco e galhos, num processo chamado de caulifloria. Outras plantas fazem isso, mas a charmosa jabuticabeira é a mais conhecida.
A plantação de jabuticabeiras deveria ser incentivada pela administração pública, tanto na zona urbana como na zona rural. O quadro de extermínio destas plantas tem que ser revertido urgentemente, sem que para isso seja preciso atravancar o “progresso”. Se não for possível manter a árvore no local, deve-se procurar, quando possível, plantar algumas mudas em outros locais e mesmo produzir mudas a partir dos galhos da jabuticabeira que deverá ser eliminada. Há várias alternativas possíveis. Como exemplo, numa incrível mostra de inteligência e bom-senso, o responsável por uma obra próxima ao rio Pouso Alegre retirou uma jovem jabuticabeira do local da obra com uma retroescavadeira e a colocou cuidadosamente em outro lugar, sendo que a planta não murchou nem uma folha nesta transição. Parabéns!
Em minha prazerosa missão de plantar jabuticabeiras (e outras), muita gente desocupada fica perguntando para que eu faço isso, já que elas estarão grandes só daqui a vários anos. Respondo que não o faço para mim, mas para meus filhos e seus descendentes, bem como pessoas de minha esfera de convivência, passarinhos e outros bichinhos. Vou plantar sempre, não só as belas jabuticabeiras, mas diversas outras frutíferas porque não sou um ser obtuso que assassina furtivamente as árvores das ruas porque suas folhas sujam jardins; eu as planto aos montes e me alegro em recolher suas folhas no chão quando necessário!
Para finalizar, espero que a idéia de plantar pegue como pegou em algumas cidades mineiras. Felizes daqueles que, em suas infâncias, andaram descalços pelo campo e degustaram os doces frutos das generosas jabuticabeiras. Felizes daqueles também que, mesmo hoje, são remetidos à infância quando sobem nessas árvores para banquetearem com essa dádiva única.  Nisso, com certeza, parei no tempo. 

Anísio Cláudio Rios Fonseca é professor pesquisador do Unifor-MG e coordenador do laboratório de mineralogia
e-mail: anisiogeo@yahoo.com.br