O adeus de Pepeuzinho

O adeus de Pepeuzinho
Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista luizgfnegrinho@gmail.com




Um pequeno gatinho preto, travesso e cheio de personalidade, entrou na vida de Soninha — a querida manicure e podóloga do bairro Muarama — trazendo alegria inesperada. Entre os nomes Pepeuzinho e Mostrengo, Mostrengo foi logo rejeitado; ele só aceitou ser chamado Pepeuzinho. No fim das contas, não foi ela quem o escolheu, mas ele quem a elegeu como sua fada madrinha. Foi breve, é verdade, mas alguns instantes têm a força de uma vida inteira.

Esse anjinho negro atravessou a existência de Soninha como um raio súbito de alegria, riscando o cotidiano com rastros de afeto e travessuras.

Sob o rigor da biologia, a morte é o fim das funções. O corpo emudece, e a ciência ignora o “depois”. Sobretudo quando se trata de pequenas vidas de quatro patas que, embora não escrevam livros, nos ensinam o que é o amor sem medidas.

 Pepeuzinho viveu em estado de dança. Teve vida doce, pontuada por artes tão intensas que Soninha, entre cansaço e riso, cogitou — apenas no pensamento — entregá-lo. Tentou doá-lo, tentou convencer-se de que a paz voltaria com sua ausência. Ledo engano. Pepeuzinho fincou as garras no chão e decretou, com a autoridade de quem se sabe amado: “Daqui não saio. Ninguém me tira”.

E ficou. 

Cumpria sua missão através da graça. Escondia a face no travesseiro, fingindo-se invisível, enquanto o corpo preto e reluzente denunciava a brincadeira. Soninha ria. Um riso leve, que a fazia flutuar, acreditando-se dona daquele ser. Que engano bonito: era ela quem pertencia ao gato.

Sua vida era um pequeno reinado. Deliciava-se com os melhores sachês e petiscos, descansando sua beleza negra sob o vento do ventilador, como um rei que sabe que o mundo existe para servi-lo.

Mas a casa tinha frestas, e a porta principal — aberta pelo ofício de Soninha, feito de mãos, pés e atenção — era um convite ao horizonte.  Pepeuzinho não aceitava prender-se em casa. Saía para conferir se o bairro permanecia no lugar, vigia do próprio destino. Amava, especialmente, uma árvore bonita diante de casa. Do alto dos galhos, talvez sentisse que a vida ali fazia mais sentido.

Naquela noite fatal, desceu com pressa. Talvez o apelo do lar fosse mais forte. O amor chama, a casa atrai — o aconchego. Cruzou a rua com o ímpeto de sempre, no exato momento em que uma moto passava. O choque foi inevitável.

Diz-se que a moto atropelou Pepeuzinho. Prefiro crer que Pepeuzinho apenas cruzou com o destino.

Às oito e meia da noite, seu corpo foi encontrado inerte. O que se seguiu não há ciência que explique: dor, choro e desamparo. Soninha restou inconsolável, e com ela todos os que conheceram aquele amor pleno, sem reservas nem artimanhas.

Encerrou-se ali um ciclo curto de ventura. Breve no tempo, mas imensurável na memória.

Soninha ainda chora. E pergunta, como quem reza em segredo: “Para onde vão os bichos? Que reino os acolhe?”

A ciência se cala. Não é seu papel consolar. O amor, contudo, tem voz. Crê em maravilhas e sabe que o que foi puro não se perde; apenas troca de lugar. Fala-se pouco dessas coisas, talvez por medo ou excesso de razão. Mas há gestos que miam baixinho, como quem pede um colo eterno dentro do peito.

Se houver um lugar além deste, onde a explicação não seja necessária, Pepeuzinho certamente está lá — escondendo a carinha em algum travesseiro do céu, deixando o corpo à mostra de propósito, só para ouvir o riso de Soninha outra vez.

Certas vidas não terminam. Elas aprendem a caber na eternidade, deixando na alma humana rastros de luz que o tempo não apaga, enquanto estrelas seguem no compasso do infinito.

P.S.: Quem diz que é “só um bicho” nunca entendeu que o amor não se mede pela espécie, mas pela marca que deixa ao partir.