O Batizado na roça

O Batizado na roça
Anísio Cláudio Rios Fonseca (de Formiga/MG)




Há bilhões de anos, quer dizer, não faz taaaanto tempo assim! Há vários anos eu e três inseparáveis amigos fomos à festa de batizado do filho de um empregado duma roça perto da nossa. Um dos amigos era seminarista e fez umas preces (antes de tirarmos ele dessa vida, mas isso é outra história!). Entre comes e bebes, a turma entrou no chapinha (aquele vinho) e ficou todo mundo meio grogue. Havia até uma moça bonitinha na festa, que tinha um marido muito ciumento. Ela estava sentada à mesa conosco e outras pessoas. Lá pelas tantas, o maridão cismou que meu primo estava se engraçando com a pequena dele. Feita a confusão, o debate acalorado foi lá pra fora da casa. Meu primo, cabra forte pra caramba e muito calmo argumentava que não tinha mexido com a dita cuja, embora eu não descarte a possibilidade de ela ter se encantado com ele, já que o gajo sempre foi boa- pinta. Cheio de cachaça, o marido dela levou a mão lá atrás e encheu um tapão no peito do meu primo. Ele nem balançou e continuou argumentando que não tinha feito nada. Daí o cara quis sacar a ruana (faca em roceirês formiguense), mas o irmão dele o impediu e o desafiou a bater em homem crescido. Nós? Nós tínhamos apenas quinze anos. Até procurei o capacho de ferro da casa para dar nele, mas que azar; era de pneu! Também não ia ter coragem pra fazer isso, tava só dando pressão. Por segurança, resolvemos ir embora e fomos passar pela cerca de arame farpado. Como havia muitos cachorros na casa, tínhamos levado uns paus de pindaíba para dar neles caso atacassem, e os pegamos onde os amoitamos. Quando eu estava passando por entre os fios de arame da cerca, minha camisa agarrou. Enquanto tentava me livrar, uma mão pesada me catou pela gola. Daquela posição ridícula em que me encontrava, vi que era o tal do cara. Esfriei como se estivesse na Antártida e cheguei a pensar que estava morto. O sujeito me perguntou o que eu estava fazendo com aquele pedaço de pau na mão, no que respondi meio desesperado que era pra bater nos cachorros!!! Ele o tomou de mim e jogou nas bananeiras. Novamente o irmão do cachaceiro intercedeu e fomos embora. Obviamente no caminho fomos falando o que faríamos se topássemos com o bebum novamente, contando um monte de vantagens. 

Meu primo foi para a fazenda dele e nós para a do meu pai. No dia seguinte, meu primo veio nos contar que o safado o seguiu até lá. Ciente do caso, meu tio atendeu a porta e ouviu o que o dito cujo falou...seu filho tava engraçando com minha mulher! Homem de temperamento forte, foi curto e grosso e falou que conhecia bem o filho que tinha, agora se ele não conhecia a mulher que tinha, o problema era dele! Essa deve ter doído lá nos cornos do sujeito, que botou o rabo entre as pernas e deve ter ido afogar essa cortada em mais cachaça. O tempo passou, ficamos mais vividos e bem mais fortes. Confusão assim não seria mais nenhum problema e não nos causaria medo como causou, mas, sem violência nenhuma, meu tio deu uma pancada tão forte no sujeito que, se vivo ainda for, deve pensar muitas vezes toda vez que vai encher a cara de novo...   

Anísio Cláudio Rios Fonseca é professor pesquisador do Unifor-MG e coordenador do laboratório de mineralogia

e-mail: anisiogeo@yahoo.com.br