O corpo pede resposta

“Sem exercício suficiente, o corpo vai devorando a si mesmo.”

O corpo pede resposta
Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho




A frase me alcançou como advertência antiga. Não tinha tom acadêmico. Soava como conselho de casa, que atravessa gerações sem precisar de prova científica. 

 O desgaste não anuncia espetáculo; uma força diminui, um movimento exige cálculo, o fôlego encurta o percurso. O corpo não protesta de imediato; começa a cobrar.

 Houve um tempo em que eu atravessava as ruas antes que o dia assumisse o comando. O ar tocava o rosto sem cerimônia. Caminhar era ajuste entre vontade e limite. Cada passo confirmava que viver não é estado passivo.

O frio entrava pelos ossos e o sol queimava a pele em gestos suaves. Respirar exigia presença. Cada alongamento era um acordo entre corpo e vontade: respeitar o corpo, agradecer-lhe por carregar o peso da vida.

 Agora observo a espécie curvada diante de superfícies luminosas. As horas passam e as pernas permanecem imóveis. Ombros cedem, a coluna negocia sua função, o olhar se fixa perto demais. A tecnologia encurtou distâncias; o corpo ficou parado.

O sedentarismo não invade; instala-se por repetição. Um dia sem movimento, depois outro. O coração reduz o ritmo, a circulação perde ímpeto, o pensamento acompanha o compasso do sangue.

 O corpo é instrumento e morada. Se não é usado, perde alcance; se não é convocado, retrai-se.   Fomos feitos para deslocamento, não para permanência absoluta na cadeira.

 Recordo-me de uma senhora que atravessava o parque todas as manhãs. Não discursava, não exibia desempenho. Apenas caminhava. Havia método nos passos, havia compromisso. Aquela constância ensinava sem palavra.

A observação de sua rotina era lição suficiente: o corpo agradece atenção, responde ao cuidado.   Bastam minutos bem vividos para que músculos se lembrem de seu propósito, para que a respiração encontre ritmo, para que a coluna reconheça sua força.

O corpo responde ao trato que recebe. Movimento regular altera o humor, organiza a respiração, sustenta o equilíbrio. Não se exige façanha, exige-se constância.

     Tudo o que não se exercita declina: a memória, se não acionada, falha; a paciência, se não treinada, encurta; a generosidade, se não praticada, endurece. A omissão repetida corrói corpo e caráter, sem aviso.

O abandono não se limita aos músculos. Estende-se à alma. O desânimo surge quando a inércia domina. A mente se torna lenta. As ideias perdem brilho. A coragem se recolhe. Cuidar do corpo é cuidar da própria presença no mundo.

Tratamos o organismo como detalhe, quando ele é condição. Não há substituição possível. É nele que atravessamos perdas e conquistas. Ele sustenta a mente nas horas de decisão e nos dias de cansaço.

Negligenciá-lo é permitir que a vida se esgote sem aviso. Pequenos gestos, repetidos, mantêm a vitalidade em movimento: levantar-se, alongar-se, caminhar, respirar fundo. Cada ato é um pacto com si mesmo, uma afirmação de que ainda se quer existir.

Talvez o erro esteja na ilusão de tempo elástico. Adiamos o cuidado como se houvesse saldo infinito.   A biologia registra cada adiamento. Cada dia de inércia acrescenta desgaste. Cada dia de movimento devolve vigor.

Caminhar não resolve dilemas humanos, mas impede que acrescentemos outros. Alongar-se não altera o mundo, mas prepara o corpo para suportá-lo. Cada gesto corporal é antena para a vida inteira.

O domingo oferece intervalo. Intervalo é escolha: levantar-se ou permanecer, mover-se ou justificar a imobilidade. O sol entra na casa e convida. O silêncio da manhã exige presença. É momento de confronto com a própria rotina, de ver se ainda estamos vivos no corpo que nos habita.

Responder ao corpo é reconhecer limite sem capitular diante dele. Idade não é sentença, é circunstância. Cada passo carrega lembranças, cada gesto renova possibilidades.

O corpo não pede só movimento; pede atenção, diálogo, presença. Ouvir o ritmo do coração, sentir a firmeza das pernas, a resistência da coluna. São sinais claros: cuide de mim, e faremos a viagem inteira com dignidade.

 Levante-se, estenda os braços, dê passos que despertem sangue e pensamento, não pelo futuro nem pelo passado, mas pelo instante que pulsa dentro de você, aqui e agora. O corpo pede resposta, e responder é honrar a vida.

 Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista.