O COTIDIANO E O PROTOCOLO
Nada foi decretado, não houve alarde midiático, nem chamada antes da novela da moda, mas todo mundo entendeu pois pra quem sabe ler, um pingo é letra. A regra mudou sem aviso, como muda o preço do pão. A vida segue — com adaptações. Aprende-se a andar na faixa estreita, no verso do controverso, no óbvio da obscuridade, a falar baixo, ou se calar e aceitar o provisório como se fosse definitivo.
Na quebradas do cotidiano, a exceção virou hábito, mas nem sempre o que parece é o que parece ser. A pressa ganhou status de virtude. A urgência, de método. Vive-se correndo para cumprir prazos que não pedimos, metas que não discutimos, promessas que não assinamos. É tudo legal, dizem. Só não é justo. Mas justiça dá trabalho e não cabe na agenda.
Na rua, o corpo se defende antes do pensamento. O olhar calcula risco. O silêncio economiza conflito. Há direitos que funcionam como feriado prolongado: existem no calendário, raramente na prática. Outros aparecem só quando convém, como guarda-chuva emprestado em dia de sol.
O discurso fala em normalidade. A vida responde com improviso. Falta tempo, sobra instrução. Falta dinheiro, sobra opinião. A exceção não usa farda — usa crachá, senha, formulário. É educada. Pede desculpa enquanto nega. Agradece a compreensão.
Dizem que é preciso resiliência. Palavra elástica, cabe tudo. Serve para justificar o cansaço alheio e elogiar quem aguenta calado. Enquanto isso, o extraordinário se esconde no detalhe: um atraso que vira regra, uma espera que vira rotina, uma renúncia que vira currículo.
A política passa pela cozinha, pelo ponto de ônibus, pela farmácia, pela fila do pão. Decide o jantar, o sono, o humor. Mas insiste em se apresentar como abstração, coisa distante, debate de tela. Como se não morasse na geladeira vazia nem no boleto aberto sobre a mesa, esperando o resultado do sorteio.
Viver, hoje, exige autorização tácita. Para descansar, para discordar, para existir sem pedir desculpa. Nada oficial, claro. É só o jeito que ficou. Um estado de exceção sem sirene, sem data para acabar e sem férias anuais.
Ainda assim, a vida acontece. Teimosa. Por pura teimosia escapa pelas frestas. Ri fora de hora, ama fora do script, insiste em ser gente. Talvez aí esteja o gesto mais político do dia: continuar humano quando o mundo prefere protocolo.
AC de Paula é dramaturgo, poeta e compositor

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