O fel de cada dia
Mais uma rotação bem-sucedida da Terra. Novamente o sol nasce e sua luz toca as residências da cidade. Ela acorda cedo, pois tem muito a fazer. Precisa aguar as plantas, fazer o café, assistir aquele programa e fazer umas quitandas porque a irmã tem visitas e pediu ajuda. Invariavelmente conserva todas as manias e hábitos no passar dos anos. A árvore de sua vida cresceu, floriu, mas não frutificou. O amor não a inebriou com seu sabor e ela nunca conseguiu se lembrar do que sonhou. Os dissabores e erros tolos acumulados em sua existência relegaram-na a uma vida de solidão e sem sentido. Não ouviu os risos estridentes das crianças pela casa, não cuidou de alguém especial. Sentada em seu sofá, observa sua casa limpa ao extremo, beirando as raias da perfeição. Não lhe escapa nenhum detalhe. Claro, o amor nunca turvou sua visão, relegando estas práticas fanáticas a um segundo plano. Houve apenas uma paixão tão fugaz que não criou raízes; apenas deixou lembranças e vislumbres do que seria ter uma vida completa.
O tempo tornou seus sentimentos rançosos e sua beleza aceitável se perdeu sem deixar vestígios. Da posição que ocupa agora, pode ser engraçada, falar bobagens, explodir por qualquer coisa, receber os filhos das outras e logo manda-los embora porque estão fazendo bagunça ou sujeira. No fundo é solitária e, às vezes, parece que a alegria dos outros a incomoda. Participa de diversas obras sociais, assiste a missa todos os dias e se confessa toda semana, embora nem tenha o que contar. É certo que, por baixo das cinzas, as brasas ardem, como diz a música, logo não considera pecado desejar ser feliz com alguém, mas quem? Não deseja ninguém em particular. Os rapazes de sua mocidade são hoje austeros senhores casados. Todas as suas colegas são casadas; umas bem, outras mal, mas estão casadas e têm filhos.
Ah, filhos! Hoje os renega, mas no fundo sabe que é o que qualquer pessoa deseja. E não é desejar por vontade. É um irrefreável impulso da natureza que surgiu na noite dos tempos, quando moléculas orgânicas se uniram para criar o primeiro ser unicelular. O tempo foi um algoz feroz em sua vida. Ceifou impiedosamente todos os seus sonhos e vontades de ser uma pessoa “completa”. Por falta de alguns gritos, perdeu sua boiada. Pensando nisso, aperta seus lençóis e as lágrimas vertem. Pensa mil e uma coisas para fazer e assim mudar seu destino.
Cinquenta e cinco anos! Como para todos os seres vivos, as portas do céu se aproximam a cada dia e ela pensa em cada segundo precioso de vida que perdeu por negligência e intransigência. Escolheu demais e não foi escolhida. Gostaria de correr atrás do prejuízo, mas se lembra da idade, das dores, da aparência e dos riscos que um relacionamento possa trazer. Não consegue ver sua casa de outra maneira, suas coisas mexidas e sua rotina alterada. A adaptação a uma vida vazia se tornou sua maldição e provavelmente será assim até o fim de seus dias.
Andando pela rua encontra um casal conhecido. Ele, sua antiga paixão fugaz. Ela, a mulher que foi mais rápida. Não há rancor ou mágoa em seu coração. Um sorriso pacífico complementa o cumprimento. Junto a eles, três criancinhas tomando sorvete. Já são netos, crias das crias, imagem do sucesso da perpetuação da espécie. Observa aquelas crianças com um olhar diferente e sente grande compaixão por elas. Esta súbita sensação lhe traz alegria. Depois deste encontro, pensa nos filhos que não teve e nunca terá. Roga esperançosamente que possa renascer um dia e consertar seus erros. Até lá, parece que pouca coisa irá mudar...

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