O homem que chorava por dentro

O homem que chorava por dentro
Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista (luizgfnegrinho@gmail.com)




Evandro andava devagar. O passo curto, a vasilha nas mãos, o olhar manso. Dizia-se aposentado, mas ninguém se aposenta do amor — e o dele era pelos gatos. Os de rua, os sem nome, os esquecidos. Acordava cedo, antes do sol, e saía à procura deles. E eles, sabidos, já o esperavam: o rajado, o cinza, o pretinho, o branco.

  Durante anos, essa rotina foi o seu ofício. Enquanto muitos corriam para o trabalho, Evandro recolhia miados. Tivera uma empresa conhecida, a Evandro Acessórios, mas o que realmente lhe dava sentido era cuidar daquilo que o mundo desprezava.

  Com o tempo, os gatos começaram a desaparecer. Um de cada vez, até restar o vazio. A notícia se repetia, amarga: envenenaram. “Chumbinho”, diziam. Palavra curta demais para tamanha maldade.

  Evandro sofria. Chorava, mas não como a gente chora. Tinha um problema nos olhos, algo que o impedia de verter lágrimas. Seu pranto era por dentro — o mais fundo, o mais verdadeiro.

  Ainda assim, ele continuava a procurar os ausentes. O cinza, o rajado, o pretinho, o branco. Chamava por eles como quem chama pela própria fé.

  Hoje, não há mais Evandro. Não há mais os gatos. Nem o antigo Correio, onde as más notícias costumavam chegar. Ficam apenas as calçadas e a lembrança de um homem que soube amar sem precisar ser visto.

  O meu Bell também partiu. Gostava das pessoas, mas as pessoas não gostavam dele. Um dia não voltou — disseram que havia um gato amarelo, morto, de patinhas para o ar, diante do Correio. Era ele.

  Evandro, Bell e o Correio desapareceram. O que ficou foi a maldade humana, que insiste em ocupar o espaço que o amor deixou vago.

        E o mais cruel é que a maldade não anda sozinha. Caminha protegida por uma couraça no coração de quem devia zelar pela vida. As leis dormem em silêncio, as autoridades fingem não ver. Envenenar um animal é crime, mas, no fundo, é mais que isso: é negar a própria humanidade. Quando se mata um bicho indefeso, o que morre é a parte boa de quem o mata.

  E agora chegam rumores de Passos: envenenam pets de rua. Entre os medos que me rondam está o de perder Pepé, minha gatinha preta, que me olha com a mesma inocência que Evandro via nos seus. Se a maldade se alastra, que ao menos o amor resista.

  Gosto de pensar que, em algum lugar do céu, há uma rua limpa de crueldades, onde Evandro caminha de novo — e, ao redor, Bell, Pepé e tantos outros gatinhos o seguem, ronronando de gratidão.