O lenço e a ferida

O lenço e a ferida
Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho (de Passos-MG)




Há práticas humanas que atravessam o tempo com uma vitalidade desconcertante. Não envelhecem, não pedem desculpas, não solicitam revisão histórica. Apenas mudam de figurino conforme a época, mas mantêm rigorosamente o mesmo roteiro nos bastidores. O famoso “bate e assopra” é uma dessas artes antigas. Um clássico da convivência, hoje reciclado com novas máscaras, palavras suaves e modos aparentemente civilizados.

Mudam-se as eras, os deuses e os impérios. Até os pecados ganham nomes mais simpáticos, embalados em linguagem moderna e boas maneiras de fachada. O gesto, porém, permanece intacto: primeiro a desfeita, depois o afago. Primeiro o dano, logo o remendo. Tudo feito com método e convicção, porque quem deseja dominar o outro sabe que o conforto alheio é sempre perigoso. Autonomia é o primeiro passo para a despedida.

O “bate e assopra” não nasce da raiva explosiva nem de um impulso descontrolado. Ele nasce do cálculo. Disfarça-se de temperamento difícil ou de franqueza brutal, mas é técnica refinada. Uma jardinagem às avessas: corta-se a flor no auge e, em seguida, lamenta-se a falta do perfume. A agressão é medida — suficiente para desestabilizar, nunca para romper de vez. O objetivo não é o nocaute, mas a dependência. Que o outro se sinta eternamente grato pelo alívio depois do susto.

É nesse intervalo delicado que surge o lenço para a ferida. Um cuidado oferecido com tanta polidez que quase parece carinho. Mas o lenço não cura; imobiliza. Amarra o movimento, limita o gesto, transforma o curativo numa barreira. A mão que fere é a mesma que estende o tecido branco, e o faz com tamanha elegância que o ferido raramente pergunta quem segurava a lâmina.

Trata-se de uma violência educada. Não faz escândalo, não deixa marcas visíveis e orgulha-se da sua compostura. Usa palavras bem escolhidas, tons baixos e uma preocupação que confunde. O golpe vem sempre justificado: foi pelo seu bem, foi sem querer, foi necessário. O afeto chega acompanhado de ressalvas. O perdão nunca é pleno; vira crédito eterno. Machuca-se para manter por perto. Acolhe-se para que se esqueça o golpe — e se prepare o espírito para o próximo.

Essa prática habita todos os lugares. Está nos lares, quando o silêncio punitivo de dias inteiros é quebrado por um agrado súbito no domingo. Mora nas amizades longas, onde a crítica pública vem seguida de um riso curto: “é brincadeira”. Aparece no elogio atravessado por ironia, na observação mordaz feita “com carinho”, no pedido de desculpas que já nasce devolvendo a culpa a quem foi ferido.

Vivemos tempos de vigilância disfarçada de cuidado. O outro permanece em alerta permanente, sem saber se a mão que se aproxima traz alimento ou empurrão. Nunca se sabe se o vento que sopra refresca a tarde ou derruba, de propósito, as flores do vaso. Essa incerteza é um instrumento poderoso. Não se quer a queda definitiva do outro, mas mantê-lo eternamente à beira dela — dependente da mão que, curiosamente, também provocou o desequilíbrio.

O “bate e assopra” sobrevive porque desgasta em silêncio. Atua em doses pequenas, quase invisíveis, como uma goteira paciente. Confunde, cansa, enfraquece. No fim, a vítima agradece pelo nó do lenço, sem perceber que o tecido apenas esconde a marca de uma posse travestida de amor.

Mas a vida é breve e o tempo não aceita rascunhos. O afeto verdadeiro não precisa ferir para provar força, nem criar dor para ser notado. O amor real é a luz que entra pela janela sem cobrança, a paz que dispensa defesas, o respeito que não joga jogos. É o abraço que não espera o ferimento — e que não aceita nós.

O jogo continua, nos salões, nas esquinas, nas praças — coloridas a custo de poderes vãos — sempre acompanhado de sorriso manso e palavra macia. A libertação começa quando percebemos que quem mais assopra a nossa ferida quase sempre é quem manteve a brasa acesa. O lenço pode até cobrir a fenda, mas a alma só descansa quando se livra do nó.

Qualquer semelhança com a vida ao abrir a janela não é coincidência. É a crônica, mais uma vez, apenas a observá-la.

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho é advogado e cronista. luizgfnegrinho@gmail.com