O Natal do Rocha

O Natal do Rocha
Entrega de alimentos no Natal do Rocha




Antônio Rocha, um exemplo de alguém que saiu das classes mais humildes, passou por todo tipo de trabalho pesado até se tornar um próspero empresário, mas que nunca abandonou as suas origens, tendo manifestado seu interesse pelos menos afortunados por meio da prática desinteressada da caridade e do amor ao próximo ao longo da sua vida. “Rocha”, como era conhecido por todos, nasceu em 11 de novembro de 1911, filho Gabriel Rocha e Bárbara Rocha, casou-se com Inah Gomes Rocha. Teve três filhos, Maria Aparecida, Pedro Paulo, o “Pepê do Posto” e Terezinha.

Seu primeiro trabalho, ainda criança, foi o de capinar o Cemitério do Santíssimo. Foi carroceiro, trabalhou na Rede Mineira de Viação como foguista e maquinista. Depois tirou carteira de motorista, adquiriu um caminhão Chevrolet, com o qual passou a fazer viagens, transportando para Formiga milho de Pains, arroz de Goiás, além de outros produtos. Também foi motorista de praça, nome que era dado aos motoristas de táxi no passado. Teve um veículo conhecido por “Fordinho 29”, com o qual trabalhou como viajante, como eram conhecidos os hoje representantes comerciais. Vendia gravatas e alfinetes para essa peça do vestuário, além de ferramentas como enxadas, enxadões, foices e machados. Peças de armarinho em geral também faziam parte do seu conjunto de mercadorias à venda.

Seu espírito empreendedor fez com que ele chegasse a ter uma pequena lavoura com um bom número de cabeças de gado. Tinha vinte empregados, a quem tratava como membros da sua família, chamando-os de meus camaradas. Distribuía a cada um deles dois pares de botina e um corte de roupa duas vezes ao ano, além de  construir suas casas e até arcar com as despesas dos funerais dos seus parentes, quando encomendava o caixão mortuário na funerária do “Manelito”. 

No passado não havia grandes distribuidores de arroz como hoje, então teve a ideia e a levou adiante, montando uma máquina beneficiadora de arroz nos seus terrenos entre a Rua Marechal Deodoro e Rua Floriano Peixoto, imóveis comprados do afortunado fazendeiro José Justino Nunes Duque, seu grande amigo e compadre.

Sua prosperidade nos negócios e o seu espírito generoso manteve em sua mente a luz da filantropia. Na década de 1960 decidiu distribuir aos sábados, alimentos às famílias carentes da cidade. Com a chegada do Natal, as doações eram ampliadas. Era organizada uma verdadeira campanha. Ele convidava empresários para que participassem da ação. Por ser proprietário de uma máquina de limpar arroz, a cesta começava com este item. Seus amigos, Emílio Pieroni doava pacotes de macarrão, Elias Amim ficava encarregado do açúcar, Humberto Filpi, proprietário da Fábrica de Banha Didi, doava os pacotes de banha. O açougueiro Inácio Borges ajudava no preparo das carnes suínas. Outro açougueiro, Orlando Eufrásio de Oliveira, o “Badala”, junto com seu filho que ainda era menino, José Modesto de Oliveira Neto, ajudava na distribuição dos gêneros. Luiz Fonseca, proprietário de uma fábrica de bonecos de papelão, conhecidos por “bebé”, distribuía os brinquedos de sua produção para a criançada. A paróquia São Vicente Férrer enviava o Padre Clemente para abençoar os trabalhos. Vale lembrar que nessa época o poder público ainda não era estruturado como hoje, para apoiar famílias em vulnerabilidade social.

As cestas eram distribuídas no bairro Água Vermelha, na localidade conhecida por “Corredor”, quando Pedro Paulo, o “Pepê”, em uma caminhonete cheia de sacos de bala e doces, distribuía as guloseimas para a meninada. A Vila Padre Remaclo Fóxius, à época conhecida por “Vila dos Adobes”, também recebia a visita dos doadores. 

Aproximando-se do Natal, a entrega se concentrava na Rua Marechal Deodoro, nas proximidades da máquina de arroz do Sr. Rocha. As famílias pobres do Bairro Rua Nova e de outros  bairros da cidade,  compareciam em peso para receberem suas cestas. Era uma festa só. Muitos ficavam ansiosos esperando pelo “NATAL DO ROCHA”.

O Sr. Rocha, partiu para a Morada do Senhor em 1991, deixando, juntamente com a sua família, um nobre legado de generosidade, solidariedade e compaixão para como os mais necessitados da nossa terra. 

Rocha, receba, com atraso, a gratidão do povo simples de Formiga.

 Antônio Rocha