O que ficou no olhar
Tem coisa que a gente vê e custa a acreditar, não por ser incomum, mas por não combinar com o que se espera do mundo.
Foi assim naquela manhã. Nada de especial no dia — sol de sempre, rua de sempre, gente indo e vindo sem reparar muito no que deixava para trás. No meio disso, uma mulher parou o carro, abriu o porta-malas e deixou o cachorro descer.
E foi embora.
Não houve cena maior, nem hesitação. Apenas o gesto simples de quem segue adiante.
Não era um vira-lata de rua, desses que já aprenderam cedo a não esperar nada. Era cachorro daquela casa.
E isso não precisava de explicação: bastava observar o modo como fazia parte do cotidiano.
Circulava pelos espaços como quem conhece o tamanho exato do lugar onde vive. Pela manhã, já acompanhava os primeiros ruídos da casa, reconhecendo passos e movimentos. À tarde, se acomodava onde a família se reunia, como se aquele espaço também lhe pertencesse. À noite, permanecia por perto, atento às variações do ambiente, como se qualquer mudança precisasse ser percebida antes de acontecer.
Sabia quem chegava antes mesmo do portão. Diferenciava vozes. Respondia a chamados com movimentos curtos, sem excesso. Não era enfeite de casa — era parte do que ali se vivia.
Às vezes ficava junto à porta, apenas acompanhando a entrada e a saída das pessoas. Noutras, seguia de um cômodo a outro, não por insistência, mas por vínculo construído no tempo.
Desceu com naturalidade para o carro naquele dia. Quem vive assim não estranha a continuidade das coisas. Vai porque a vida sempre foi sequência.
O carro seguiu sem pressa. Não houve hesitação no retrovisor. Apenas seguiu.
O cachorro ficou.
Primeiro, como quem ainda não compreende o deslocamento do mundo. Olhou em volta, depois na direção do carro que se afastava, como se procurasse algum ajuste no que via. Não encontrou.
Deu alguns passos, parou. Não correu atrás. Não ainda. Havia ali uma espera antiga que não se desfez no mesmo instante.
E então ele olhou.
Não era cena. Nem espetáculo. Era uma pergunta sem resposta possível.
“E agora?”
Ficou imóvel por alguns instantes. Não muitos. O suficiente para perceber que não havia retorno possível.
Baixou a cabeça por um momento curto, como quem reorganiza o que ficou fora do lugar.
Depois, caminhou.
Não rápido. Não lento. Apenas caminhou — como quem aprende, sem escolha, um novo contorno do mundo.
Algumas pessoas viram. Outras passaram sem ver. Houve quem comentasse em voz baixa. Alguém telefonou para algum serviço qualquer. Há sempre um serviço para quase tudo.
Mas certas coisas não cabem em registro.
O que ficou mesmo foi o olhar.
Não pela tristeza — que o tempo leva —, mas pelo instante em que um vínculo deixa de ser reconhecido por uma das partes e continua inteiro apenas na outra.
O cachorro seguiu pela rua, ainda olhando de vez em quando, não para trás exatamente, mas como quem tenta confirmar se o mundo continua sendo o mesmo mundo.
E o mundo continua.
Só não do mesmo jeito.
Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho — advogado e cronista.

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