Opinião: A lanterna – Parte 2
Ana Pamplona (de Formiga)
Luiz notou meu assombro e disse-me entre nervoso e desafiador:
— O que foi dessa vez, Sônia? Tem algo a me dizer?
Fiquei lívida. O susto foi tão grande, que saí do elevador sem responder. Dirigi-me rapidamente à porta do meu apartamento. Enfiei a chave, não encaixou. Tentei várias vezes, insisti forçando a maçaneta. Nesse momento, alguém abriu repentinamente por dentro. Apareceu a vizinha do 502. Dentro da minha casa? Ela começou a berrar comigo, perguntando se eu estava louca, tentando arrombar a porta dela. Foi quando percebi que estava no andar errado. Instintivamente apontei a lanterna acesa para ela. Novamente, a cena paralisou. Lindalva interrompeu os impropérios contra mim com os olhos estatelados, a boca aberta e, tal como a alguns minutos atrás, comecei a ver os pensamentos dela materializados em volta de sua cabeça. Eu quase poderia pegá-los, de tão consistentes que estavam: “mas essa mulher é uma sem noção mesmo hein? Não bastasse enfiar a colher em tudo que acontece aqui no prédio, ainda tenta arrombar as portas das nossas casas...”. Desliguei a lanterna. Lindalva descongelou e continuou a gritar comigo, enquanto fui saindo de fininho. Subi mais dois lances de escada e cheguei em casa. Desabei no sofá. Pensei no absurdo que estava minha vida.
— Que diabos está acontecendo comigo? perguntei em voz alta. Levantei rapidamente com o impacto do nome que pronunciei. Será que o quase trato que não cheguei a selar deu certo? Mas como isso era possível? Eu tinha dúvidas até se o tal satanás existe, imagina fechar um PACTO! Recusava-me a crer nessa loucura. Foi somente um delírio, uma alucinação, talvez devesse procurar um médico, mas verdade não poderia ser. De forma alguma...
Foi quando tocou a campainha, era a Lelena, minha melhor amiga.
— Sônia, esqueceu do nosso compromisso? — perguntou ela, impaciente — Estava esperando você passar lá em casa, estamos atrasadas!
Ai meu Deus! Festa surpresa de aniversário do Alexandre, o “crush” dela. Respondi que estava lembrando, mas que havia tido alguns contratempos. Pedi desculpas e entrei no chuveiro rapidamente. Em dois tempos arrumei-me e saímos. Não tive coragem de comentar sobre a esquisitice que estava a minha vida.
Na festa não consegui relaxar. Só pensava no meu problema. Por via das dúvidas, levei a lanterna, pois resolvera fazer alguns testes. Chegava perto das pessoas, — a maioria eram meus colegas de trabalho na empresa — cumprimentava-as, apontava a lanterna acesa e aguardava o fenômeno acontecer. Foi uma sucessão de tragédias. Descobri quantas queixas as pessoas tinham de mim. Pensavam, entre outras coisas, que sou aborrecida, inconveniente, impertinente, controladora, maçante e que eu mereci o chifre que tomei do meu namorado, por ser uma pessoa irritante e tediosa. Fiquei tão chocada que ao final da consulta precisei sentar-me. Será que eu era tudo aquilo mesmo? Nunca imaginei que fosse a personificação do mal em tão grande escala. Olhei para a lanterna e me perguntei o que significava aquilo. Lelena deve ter percebido que eu não estava bem e me abordou:
— Sônia, o que você tem? Está pálida, parece que vai desmaiar!
Minha cabeça girava, senti que ia apagar, literalmente. Ela acudiu-me, soprou em meu rosto e eu senti o cuidado dela me aquecendo. Fui melhorando aos poucos. Já mais refeita, resolvi consultar o pensamento de Lelena com a lanterna, para saber sobre a impressão que ela tinha de mim. Assim o fiz. Por incrível que pareça, as palavras materializaram-se e tinham um perfume. Outra loucura da minha cabeça? Acreditem se quiser, foi o que senti. Ela dizia para consigo: “Ô gente, coitada da minha amiga. Uma pessoa tão boa, prestativa, bem-intencionada, porém, tão incompreendida e antipatizada. Também, não é para menos... essa mania que ela tem de contestar, criticar, controlar e dominar, impede que as pessoas a conheçam de verdade. Ela deveria buscar ajuda profissional para controlar esses impulsos, mas não tenho coragem de falar...”
Bastou por aquele dia. As palavras dela foram como uma bomba, pois atestavam tudo que eu havia ouvido sobre mim, no entanto, não me feriam. Apenas mexiam na confortável situação em que me encontrava até então.
Fui embora com uma desculpa de que precisava dormir. E dormi, mas um sono muitíssimo agitado. Sonhei que encontrava uma criatura bizarra, cuja aparência não saberia descrever, pois não era feio, apenas... bizarro. Depois de uma conversa ininteligível e intensa entre nós, acordei aos pulos com a seguinte frase na cabeça: “Você não desejava tanto saber o que as pessoas pensam para se antecipar às ações delas? Pois bem! Seu desejo foi realizado! ” Respirei para acalmar-me. Procurei a lanterna. Não a encontrei. Haveria perdido? Enfim... tanto melhor. Se é que houvera feito um pacto, precisaria desfazê-lo? Na dúvida, fui ao local da trilha onde encontrara a lanterna e.… supresa! Ela estava lá. Saí rapidamente sem olhar para trás.
Abalada com os acontecimentos resolvi procurar ajuda profissional para entender toda aquela loucura. Procurei um psiquiatra para me atender de urgência, definitivamente, eu não estava bem.
Enquanto aguardava na sala de espera, já mais calma, observei os quadros na parede. A disposição não me parecia boa, talvez uma pequena mudança nas posições.... Não resisti: levantei-me e troquei os quadros de lugar.
continuação da parte 1 publicada em 24/06/25, na edição Nº 6626)

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