Opinião: Bichectomia

Ana Pamplona (de Formiga)

Opinião: Bichectomia
Ana Pamplona é membro do Coletivo Poesia de Rua




O dia amanheceu nublado.

Na sala de espera do consultório odontológico, Marialice folheava uma revista feminina, dessas, cujo conteúdo, em sua maioria, é recheado de futilidades. Na brilhante página 15, aparecia a foto de uma mulher muito bela, madura, olhos fechados, um sorriso discreto, com expressão de plenitude, cabelos levemente grisalhos, agitando um leque. No topo da página havia o título: “Menopausa: início ou fim da vida? ”

Marialice fechou a revista e resolveu usá-la como leque. Era o melhor a fazer. O calor a estava sufocando e a foto passava a impressão de que a menopausa era alguma coisa espetacular, até apoteótica. Pensou, “esse editor deve ser homem. E daquele tipo que zomba das mulheres”. 

Abanou-se ainda um pouco com a incômoda revista até cansar o braço. Observou que o aparelho de ar condicionado estava ligado, mas o calor dela não passava. Ao contrário, aumentava. A nuca transpirava e isso lhe provocava falta de ar e sensação de morte. A essa altura estava fácil responder à pergunta da página 15: fim da vida. Início, só se for do estágio no inferno. Suas parentas mais velhas diziam que aquela fase iria passar. Sua avó: 

— Marialice, menopausa não é tão ruim assim, ao contrário, é bênção. É ruim no começo, mas depois fica ótimo. A gente acostuma. Depois de um tempo, você não precisa se preocupar com o cabelo, nem com a pele, porque já estará tudo tão ressecado e branco, que não tem o que fazer. E não há remédio para isso. Para o resto também é verdade, aliás, é até um alívio (ela se referia à vida sexual). E outra: menopausa vem junto com velhice e velhice, significa não ligar para nada. Então, não se preocupe. Para as diversas situações que os velhos passam na vida, ou a gente precisa fazer “cara de parede” ou “rodar a baiana”. Não tem meio termo.

Referia-se ela, às situações movidas a preconceito em relação ao envelhecer. E completava:

 — E, tanto para o caso de fazer cara de parede ou rodar a baiana, faça sempre com força — disse isso enfatizando o “com força” — Mas não se esqueça de aceitar a velhice e tudo que ela carrega consigo, minha filha, tentando viver o melhor que puder.

Muito estimulante, a vovó. Sua mãe, também, não era menos animadora. Com um tom de enterro, dizia:

— Menopausa? Pior que a morte. Quando chega essa fase somos rejeitadas por todo lado: pela sociedade, pelo marido e pela família. É como se alguém nos desse um certificado de velhice: chega e se apodera de nós, por dentro e por fora. 

Certa feita, mãe e filha foram ao supermercado. Andando lado a lado, cada qual com seus carrinhos, depararam-se com uma prima: Corina. Marialice sabia que aquele dia não ia acabar bem, pois não poderia sair coisa boa daquela boca. Quando criança, o apelido dela entre os primos era Corina “boca de B.”. Desnecessário explicar o que significa o “B”. Dito e feito:

 — Marialice do céu! Só te reconheci porque você está com a tia Niceia! Como você engordou heim? O que foi? O “pasto” está bom lá na sua casa? (disse isso dando risadas).

Clima sepulcral no supermercado. Tema delicado esse, sobre engordar. Ela sempre dava um jeito de reagir eticamente a esse tipo de crítica, mas já era o segundo comentário do dia sobre o seu peso. O primeiro foi logo cedo e originado do marido. Havia engolido a indignação com uma expressão amuada. Porém, naquele momento, Marialice resolveu seguir o conselho da avó: fez cara de parede, talvez uma parede com um pouco de chapisco, mas fez. E virou o carrinho solenemente para acessar outro corredor. Achou que aquela atitude tinha sido executada “com força”. Sentiu-se bem. Agradeceu à vovó pelo ótimo conselho.

Mãe e filha evitaram comentar o incidente durante o percurso do supermercado até a casa da primeira. Quando chegaram, após descarregar e ajudar a guardar as compras da mãe, Marialice apressou-se em ir embora. Mas D. Niceia não se conteve e comentou a atitude desagradável da prima Corina. E disse que de certa forma, ela tinha razão. A filha havia passado dos limites no quesito engordar. Começou então uma discussão que descambou em:

— Mãe, a senhora sabe como é, engordei por causa da menopausa! Acabou o assunto! 

— Lilice, pare de culpar a menopausa por causa do excesso de peso! Você está gorda “que nem uma porca” porque não consegue moderar a boca!

Naquele dia, sua relação com a mãe — que jamais fora boa — deteriorou-se bastante. Marialice saiu furiosa da casa dela, prometendo para si mesma emagrecer tudo que engordou devido à maldita menopausa e nunca mais voltar ali. Não é preciso dizer que ela descumpriu as duas promessas. 

Enquanto relembrava, magoada, todos esses fatos na sala de espera, a auxiliar do Dr. Toletinho a chamou para a consulta. Devidamente acomodada na cadeira odontológica ela explicou ao doutor o motivo da consulta:

— Doutor, ultimamente, quando vou comer, mastigo junto minhas bochechas e elas têm ficado muito machucadas. Disseram-me que estou precisando de uma cirurgia chamada bichectomia. O que acha?

— Acho que você está gorda que nem uma porca, por isso está mastigando suas bochechas! — disse o dentista com um ar bem humorado.